– Pode aguardar ali no bar enquanto o seu acompanhante chega. – Disse a hostess com um ar de Duquesa de Cambridge que só fazia aquele serviço às sextas-feiras à noite por hobbie.

– Não tenho acompanhante, vim sozinha. – Respondi com a espontaneidade de quem faz isso com habitualidade nas noites de sexta-feira justamente porque não tem um Príncipe William em casa.

– Neste caso, você já pode ir escolhendo em que região prefere se sentar. Quaaaando a sua mesa estiver disponível, ressaltou com o dedo em riste.

E me instruiu a seguir a sua assistente, uma aspirante a Angel, cuja missão talvez tenha fracassado porque só tivesse em comum com a Adriana Lima o branco dos olhos, mas que desfilava pelos corredores do restaurante acreditando piamente estar na passarela do Victoria’s Secret Fashion Show.

– Gostaria de sentar onde? No sushi bar?

Torci o nariz. Meus planos para aquela noite eram mais arrojados do que um mero balcão de sushi.

– Pode ser uma mesa normal?

– Pode.

– Qualquer uma?

– Qualquer uma.

Avaliei com muito cuidado o local e mapeei as alternativas. Ao fundo do salão, um Buda gigante era o zelador do espaço principal, que contava com mesas maiores e menores intercaladas. Ao lado direito, o tal do sushi bar. E, de frente para o Buda, logo na entrada, uma graciosa escadaria com mesas de todo tamanho, de onde se podia observar todo o local, como em uma arquibancada de Sambódromo. Entre um degrau e outro, curiosas estátuas de macacos intercalavam-se entre mesas e abajures. Não restava dúvida: ali era o meu lugar!

– Pode ser na escada?

– Pode.

– Então é aqui mesmo.

Orgulhosa da minha escolha, ganhei um bip vibratório e fiquei aguardando. Eram 21h20, a reserva estava agendada para 21h30, aquilo não devia levar muito tempo. Do hall do topo da escadaria, fiquei observando o movimento e pensei “Como sou sortuda! Estou no Tao Downtown, em Nova York! Apesar da advertência no site de que as reservas devem ser feitas com um mês de antecedência, eu consegui com apenas 5 dias! Aquilo sim era bom presságio! A noite promete!”

Lembrei das recomendações da italiana que me apresentou ao local na minha viagem anterior à cidade:

– O Tao é um lugar para ver e ser vista. Um drink é capaz de custar 40 dólares! Vá bem arrumada. Os melhores partidos de Nova York costumam se encontrar lá.

Antes de fazer a reserva, consultei o cardápio na internet para me assegurar de que não precisaria deixar nenhuma joia em penhor para pagar a conta. Vi que, afinal, era possível tomar uma taça de prosecco por um terço do preço que a italiana tinha informado. E um drink pela metade. Ela devia ter se enganado! Ou fazia parte do charme de quem já foi ao lugar dizer que as coisas custam o dobro ou o triplo pra valorizar o esforço?

Passei a reparar nas roupas daquelas pessoas. Não tinha ninguém de rasteirinha nem de tênis, mas aquilo também estava longe de ser um primor em termos de vestimenta. O Figueira Rubayat de São Paulo, por exemplo, que nem dress code exige, costumava ter gente muito mais bem vestida do que ali.

O relógio foi fazendo seu tic tac e comecei a sentir fome, apesar de ter feito um lanchinho antes de sair do hotel. Minha mãe me ensinou, quando criança, que quando a gente vai na casa de alguém rico não deve ir esfomeado pra não sair comendo como se tivesse acabado de descer do pau de arara. Aquilo valia também pra restaurante caro, criei a analogia: fazer uma boquinha antes e comer apenas o indispensável pra não gastar muito. Mas aquele sagu de chia com leite de coco, assim como a salada de quinoa com salmão do Pret a Manger já haviam se encontrado não só com a ptialina, mas também com as proteases, lipases e tinham acabado de chegar ao meu íleo! Eu era só um estômago em estado de vácuo selado na coluna vertebral, equilibrado em saltos altos de verniz pretos.

Mas não ia perder o pique! Aquele era um lugar para ver e ser vista! Continuei observando atentamente cada detalhe do restaurante, cada pessoa.

– Pode tirar uma foto da gente?

– Claro. – Respondi com um sorriso amarelo.

Muito pouco me aborrece em sair sozinha, mas um dos itens que estão nessa pequena lista é ser chamada pra bancar a fotógrafa. É como se, naquele instante, acendessem os holofotes em cima de você, chegasse um apresentador do estilo Raul Gil e lhe entregasse um troféu de “a ermitã do local”. E nunca lhe pedem pra tirar uma só foto porque, a partir do momento em que lhe descobrem, todos os grupinhos irradiando aquela alegria facebuqueana dos sorrisos encomendados e das hashtags #gratidão #deusnocomando e #muitoamorenvolvido vêm atrás de você e só depois de tirarem 358 fotos e já acharem que você faz parte do staff do lugar é que finalmente lhe deixam em paz. Pior: se você quiser se vingar e decidir pedir pra alguém retribuir o favor, a foto certamente sairá um horror. Faltarão os pés, um pedaço da cabeça ou a paisagem, os olhos sairão fechados, a foto sairá escura ou tremida. Sair sozinha tem, sim, desvantagens.

Depois daquelas 358 fotos tiradas, meu estômago esgoelava mais do que a música ambiente e retornei à presença da hostess Catarina Middleton, questionando se ainda faltava muito.

– Tem de esperar.

– Mas não estava reservado para 21h30? Já são quase 22h.

– Tem de esperar! Repetiu, indiferente ao meu pleito.

Tornei ao meu posto de vigilante. Contei todos os braços do Buda ao fundo do salão. Eram 12. 24 mãos. 240 unhas. Levei dois pisões no pé enquanto pesquisava na internet, mas descobri que ele era um Quan Yin e que aquelas mãos todas era símbolo de assistência – pelo menos era o que dizia o site do restaurante. Até que, de repente, do alto da escadaria, reparei que a mesa do segundo degrau estava disponível. E o pequeno primata do terceiro nível já virava pra trás e acenava pra mim:

– Vem! É sua!

Sorri de volta para ele.

– Já vou. Peraí. – E dei uma piscadinha.

Tinham se passado 50 minutos desde a hora da minha chegada quando, finalmente, aquele aparelhinho vibrou: era a minha vez!! Sai em disparada até o Olimpo das hostess e aquele cover bizarro da Adriana Lima me acompanhou.

Segui imitando seus passos, adentrando no salão como um general que invade o campo da batalha. Descemos um, dois, cinco, sete degraus. Passamos ao lado de toda a macacada. Reto. Ué? E ela me conduziu para uma mesa ao lado esquerdo do salão, atrás de um painel escuro onde se lia, em letras vermelhas iluminadas: EXIT. Era uma mesa de canto, embaixo do mezanino, exatamente ao lado da parede da saída de emergência e com a visão prejudicada. Ora, mas eu estava no Tao! Um lugar para ver e ser vista! Ali ninguém iria me ver. Quanto muito, eu é que ia poder ver, tímida e voyeuristicamente, aquele movimento que já me deixava até meio farta.

– Olha, deve estar havendo algum engano. Leeeembra que você perguntou onde eu queria sentar e eu falei que queria na escadaria? A minha mesa não seria aquela? – Apontei para a mesa vazia ao lado do primata.

– Sim, mas aquela é uma mesa para casais.

– Mas você mesma disse que eu podia escolher sentar onde quisesse. – Argumentei.

– A mesa que temos é essa. E virou as costas, com aquela gentileza habitual em Nova York de quem não depende de “tips”, continuando seu desfile imaginário.

Olhei para o macaquinho ao lado direito com um ameaço de lágrima no olhar. Virei-me para o Buda com suas 24 mãos ao lado esquerdo. Aquilo era um exercício de paciência: “Não xingarás. A mãe de ninguém tem culpa. Não partiras copos nem pratos. Não mandarás ninguém aos excrementos.” E não pude continuar minha divagação, porque em Nova York as pessoas não lhe dão muito tempo pra isso, nem mesmo no restaurante do Buda misericordioso.

– Água com ou sem gás?

– Hã?

– Com ou sem gás? – Disse o garçom já perdendo a paciência.

Eu nem tinha sentado ainda.

– A da casa, que é de graça. E um martini de lichia – O de 19 dólares, não o de 40, que não sou milionária! – Alertei.

– Ele olhou meio estranho, mas em poucos minutos eu já estava servida.

Comi um fried rice como se tivesse acabado de descer do pau de arara, pedi a conta e fui embora sem qualquer necessidade de prolongamento de estada. Ninguém notou minha minissaia, a blusa de renda, os brincos verde esmeralda, os sapatos de verniz ou a bolsa vermelha em formato de envelope. O tal Buda da assistência, com todos aqueles braços, não me fez sequer um aceno. Apenas o macaquinho do terceiro degrau, quando passei pela mesa, que continuava vazia, foi capaz de entender a minha decepção: um verdadeiro mico no tal do Tao.

(Ivy Cassa)

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