– Alô, “dotora Ívis”! A Dona Interpol tá aqui embaixo.
– Quem, seu Genivaldo?
– A Dona Interpol. Ela falou que é autoridade e tá subindo com um polícia de fuzil.
Droga! Que visita indesejada, justo hoje, que é dia de celebração!
Din-dom. Abri a porta.
Ela só podia ser a irmã gêmea de Miranda Priestly, de “O Diabo Veste Prada”! Trajada impecavelmente em um tailleur Channel, vinha acompanhada de um jagunço calvo e de sobrancelhas grossas, no melhor estilo “Meu Malvado Favorito”.
– Ivy Cassa?
– Eu mesma! Podem entrar. Sejam bem vindos à Minha Nova York. Falei, procurando sublimar a situação com meu melhor sorriso e dando um ar blasé.
– Mas que raio de porta é essa? Não tem síndico no seu prédio? Gru, fotografe tudo: “What happens here never happened”. O que a Senhora pretende insinuar com isso? Que tipo de obscenidade ocorre aqui que se deve esquecer ou que jamais se viu?
Ri pacientemente, enquanto posava para a lente do policial:
– É apenas um trocadilho. Quando se entra em uma festa, as pessoas devem deixar os problemas que estão lá fora, não é? Além disso, tem umas coisas que só acontecem aqui mesmo.
– Pode dar um exemplo?
– Hummm. A noite em que dormi acampada em uma barraca lá no quarto lhe parece peculiar?
– Gru, anote isso! E esse monte de bobagens rabiscadas em volta? Foi no manicômio que você aprendeu?
– São pedaços de um livro que estou escrevendo e citações de autores que aprecio. Recados afixados para mim mesma que devo ler quando saio e entro de casa.
Ela parou em um “ninguém quer a vaca se o leite é de graça”.
– Imagino quanta tolice!
– “Foi-se-o-tem-po-da-ra-ção-do-a-mor”. – balbuciava Gru com o dedinho na porta.
– Chega disso! Vamos entrar! – gritou a mulher.
– A Senhora se incomodaria de tirar os sapatos? Apontei para aqueles Christian Louboutin que deviam custar mais caro que um par de rins no mercado negro.
– Como?
– É regra da casa. A sujeira da rua não cruza o limite da porta. Poeira, xixi de cachorro, cuspida, nada disso… eu própria só ando por aqui de meias ou descalça…
Ela olhou de má vontade para as unhas vermelhas dos meus pés. Ofereci prontamente umas Havaianas da Bela Adormecida da cestinha ao lado direito da porta.
– Posso ficar com as dos Flintstones, por favor? – implorou Gru com as mãos em prece.
Respondi que sim, dando uma piscadinha, e ele largou o fuzil em cima do sapato no canto esquerdo da porta.
– Recebemos uma denúncia de que a senhora praticaria atos subversivos, libidinosos e contrários à moral e aos bons costumes neste recinto. Viemos fazer uma averiguação.
– Pois não. Por onde gostaria de começar?
– Pela ficha: profissão?
– Lá fora, advogada e professora. Aqui em Nova York, escritora em formação, dançarina atrapalhada, duas vezes por ano, cozinheira, vez ou outra, namorada, mas amiga, filha e mulher, em tempo integral.
– Gru, escreva: transtorno dissociativo de identidade. Idade?
– 35 anos.
– E, pelo visto, não tinha lousinha em casa pra escrever quando era pequena. Humpf! Signo?
– Capricórnio, com ascendente em leão e lua em leão. Na verdade, sou “unicórnio”.
– Como?
– É que os caprinos são meio sisudos e os leões festivos… os unicórnios são mais dóceis que as cabras e menos ferozes que os leões. Além disso, são seres mágicos.
Ela fez uma careta.
– Estado civil?
– Viúva desde 2015.
– Matou o marido? “Viúva negra”?
– Não. Ele morreu por doença. Uma fatalidade.
– E você não se veste de preto por quê? É do tipo “viúva alegre”?
– Não. Sou do tipo “viúva bem resolvida”. Registre aí, Gru! Gru?
Ele cutucava o nariz do funil em forma de Pinóquio pendurado na parede da cozinha. A chefe puxou-o pelo cachecol.
– Hobbies?
– Viajar, comer, escrever, ler e ver seriados.
Dona Interpol caminhou pelo tapete redondo até a estante.
– Vejo muitos livros… A senhora é comunista? Tem até um de Pablo Neruda.
– Não ligo pra política. Nem discuto.
– É alienada, então? Só se preocupa com futilidades?
– Só não discuto. Minhas leituras são poéticas e literárias. Meu mundo é Caetano, Bandeira, Marisa, Clarice, Machado, Neruda, Eça, Pessoa, Tati Bernardi…
– A senhora organiza saraus?
– Já organizei. Com um quase namorado.
– Vocês se drogavam?
– Não. Nunca. Nem café.
Ela continuou a peregrinação até a cozinha.
– Há muito vinho nessa adega.
– Herdei do meu marido e não dei conta de beber. Às vezes, reúno os amigos em casa pra ajudar.
– Ah, eu sabia! Subversivos! Filhos de Baco! O que acontece na sua casa aos finais de semana?
– A gente bebe vinho, ué.
– E o que mais?
– Comemos comidas típicas.
– Adicionam drogas a essas comidas?
– Segundo o pai Geraldo, as salsichas de soja da noite alemã estavam uma verdadeira droga…
– Deviam estar mesmo! – Resmungou Gru. Era penitência?
– Não, é porque sou ovolactopescovegetariana.
– Gru, aponte isso. É uma doença?
– Não. É só estilo de vida.
– O que mais?
– Às vezes, a gente se fantasia.
– Escreve aí: festivais etílicos carnavalescos indoor! Que trajes vocês usam? Não esconda nada!
– Roupa de romana na noite italiana. Bom, não era bem uma roupa. Eram uns lençóis amarrados, confesso.
– E o que mais?
– Um leque chinês! Na noite espanhola. Perdão! Não havia leques espanhóis na 25 de março. – Lamentei
– Algum ritual?
– Às vezes, dançamos.
– Invocam maus espíritos? Exus? Dançam com cadáveres, galinhas, fazem sacrifícios de animais ou humanos?
– Uma vez!
– Ah: Gru! Volte aqui! – Ele caminhava pelo corredor em direção ao quarto.
– Uma vez, continuei, sacrificamos 5 pratos. Era uma noite grega e o Carlão comprou os pratos pra gente quebrar no fim do jantar.
Gru tornou a marchar pelo apartamento e voltou do closet vestido com o robe azul de urso com óculos nas costas.
– Fiz uma apreensão de objetos! Ele riu maldosamente, esfregando as mãos. Abriu um saquinho transparente, revelando uma calcinha vermelha e um pacote de camisinhas. A Senhora promove orgias? – Perguntou, imitando a Dona Interpol e levantando uma sobrancelha.
– Não Senhor. E o Senhor poderia por favor tirar meu robe? Ele não lhe cai bem.
– Gru, desapontado, sentou-se no sofá cinza – pobre Gru! Se ele conhecesse a fama daquele móvel!
Dona Interpol foi até a varanda e segui atrás dela:
– Já viu as maritacas? Espere os ônibus passarem e note. De manhãzinha, o barulho que fica é o dos sabiás querendo namorar. Meu cardiologista disse que eles são estressados como eu. Ele fala umas coisas pouco convencionais. Disse que queria tomar a água do meu banho. Eu tomo banho com um sabonete holandês que faz muita espuma, mas não acho que as pessoas deveriam beber essa água. Se eu fosse uma Rainha louca mandaria todo mundo beber Évian, porque é uma água docinha, você não acha? Vai ver, é por isso que eu tenho uma curiosa coleção de garrafas d’Água sem gás – a Senhora reparou?
– Como a senhora fala! Cale a boca! Estou em contato com Lyon. Quiapê Interpol. E apertou o botão do comunicador. E a senhora pode entrar – me enxotou.
Encontrei Gru abraçado aos gatinhos – Bruno, Lucas e Christian.
– Quer um chá?
– Sim. Chá de quê?
– Claro que não! Interrompeu Dona Interpol, invadindo a sala. Não viemos aqui pra tomar chá!
– É só um chá de desaniversário.
– Desaquê?
– Desaniversário. Aqui é Nova York, mas é também Paris. É Viena, Singapura, Qatar e São Paulo. É a Terra do Nunca e o País das Maravilhas. Jamais falta chá. Hoje não é meu aniversário, mas é o dia do desaniversário da minha página na Internet: daí a celebração.
– Gru, temos ordens para ir embora! Mas voltaremos, Senhora!! Disse com maldade.
O capanga olhou para minha coleção de canecas de chá com uma lágrima nos olhos…
Ela arrastou Gru, tiraram as Havaianas e chamaram o elevador.
Sorri ao me despedir daquelas figuras caricatas.
– Dona Interpol, posso lhe oferecer um presente?
Corri até a estante e puxei um livro: “O Alienista”.
– Será que aquele robe de urso…? – perguntou Gru com um olhar pidão.
– Não… o robe nem pensar, Gru. Repreendi.
Ele então olhou pela última vez para a porta:
– O que acontece aqui nunca aconteceu, não é mesmo? Huhuhu!
– Cale a boca, Gru! – Ela que nos aguarde! Dona Interpol bateu a porta, trincando o tridente do salto de seus sapatos de sola vermelha.

(Ivy Cassa)

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