Postal de Paris pra Tia Dinorah

Oi, tia!

Há tanto tempo não mando um postal que já nem sei se começo com bom dia, boa tarde ou boa noite.

Já faz uns tantos dias que iniciei essa fuga para Paris e posso dizer com alguma propriedade: não foi à toa que Neruda, Sartre, Beauvoir, Hemingway e tantas outras personalidades se abrigaram aqui para escrever. Paris é uma festa, ao mesmo tempo em que tem um tanto de lamúria. Tudo depende do que se escoher para beber: champanhe, vinho tinto ou conhaque.

E digo isso porque, nas noites mais frias, não tem jeito, viu, tia: um cálice de qualquer coisa é o melhor (quando não o único) amigo. Nem venha me falar sobre o tal do cobertor de orelha, que isso já não existe mais. Bom, na verdade, eu até vim pra Paris tentando esquecer essas bobagens. Vou te contar como tudo começou:

Eu, que nunca fui de tomar café, (você sabe que sempre sofri com refluxo do esôfago), dei pra tomar uma xicrinha ao amanhecer nos meus útimos meses de Brasil. Nem sei explicar se por causa da cafeína pra dar alguma energia, ou se por culpa da Marisa Monte. O problema todo é aquela música: “Todo dia de manhã enquanto eu tomo o meu café amargo… Ainda boto fé de um dia ter ao meu lado”. Entende, tia?

Precisei vir pra Pa-ris! Tentar parar de tomar café. Digo. Parar de ouvir Marisa. Ou… parar de pensar em Caetano.

Mas, às vezes, a cura vem pelo distanciamento. Ou a estratégia de inventar alguém pra colocar no lugar do outro. Algum dia ainda vai dar certo! Veja só o que me aconteceu.

Conheci um rapaz de Java. Java, tia!! Qual a chance disso acontecer? Tá, eu sei que eles estão estratégica e perigosamente espalhados pela Europa… eu mesma já tinha conhecido alguns em outras partes e até por isso já carregava comigo o sinal de PERIGO!! Aquele mesmo alerta que a mamãe e a senhora ensinaram desde cedo: não entre em carro de estranhos nem aceite balas (a não ser que seja de Uber). E não se meta com caras de Java, porque eles são criaturas mitológicas, lendárias, feito o Boto da Amazônia.

Os homens de Java são os Homo Erectus Erectus, pra começo de conversa. Tia… desculpe a franqueza, mas os homens de hoje nem erectus são!!! Você acredita que Viagra e Cialis passaram a fazer parte daquela minha necessaire dos comprimidinhos básicos? É, Dramin, Aspirina, Dorflex, Gelmax… Viagra e Cialis! Tia, porque ele nem carregam o próprio arsenal! Chegam cheios de banca, como se fossem capaz de povoar o mundo e… “ah, fica pra outra vez. Vamos jogar paciência? Candy Crush?” “Mas com esta camisola da Victoria´s Secret que paguei 200 dólares???”

Só que os homens de Java definitivamente são diferenciados. Tia, a gente se conheceu no café da manhã, enquanto eu pegava um pain au chocolat que eu mal enxergava – não pela falta de óculos, mas pela cortina de sono que semicerrava meus olhos àquela hora da matina. A sala de café estava cheia e ele pediu pra dividir a mesa comigo. Achei engraçado aquele sotaquele de Java e concordei. Quando dei por mim, eu nem tinha pego café! Talvez, fosse o fim da era do café amargo sonhando ter Caetano ao meu lado: tudo sem planejar. Ficamos ali até acabar o horário do petit dejeuner e a sósia da Whoopy Goldberg, que cuidava do esquema da refeição, com aquelas unhas protuberantes, começar a batucar na máquina de café e a dizer que havia outros cafés na praça pra gente conhecer. Uma simpatia de moça!

Sem jeito, levantei logo da mesa e me despedi, mas ele me deixou um cartão e perguntou se eu aceitaria sair para jantar à noite.

Eu disse que a gente podia ir se falando ao longo do dia… um homem de Java!! Um homem de Java!! Eu precisava digerir aquilo. Mas, até a metade da tarde, estava decidida: eu iria!

Ah, tia! Há quantas semanas um homem não me convidava para jantar? Tá, eu sei que o Dênis me levou pra jantar outro dia – mas era no Podrão! E só acabamos indo a um bistrô mais ou menos porque eu inisiti. E ele passou o jantar reclamando dos preços do cardápio. Dizendo que comida boa era a da avó dele. Bebeu água da casa e comeu salada. Bebericou minha taça de vinho com os lábios cheios de azeite. Enfiou o garfo cheio de atum enlatado na minha polenta de funghi. E ainda avançou no meu brigadeiro de colher – brigadeiro de colher não se divide! Eu aposto que ele devia estar saindo de um período de jejum intermitente de 18h, por isso o desespero. E eu fui obrigada a deixá-lo em jejum sexual, porque, depois daquela presepada, não havia clima pra mais nada. Pra que eu o tivesse chutado da mesa, só faltou ele ter pedido um pato, o que realmente me dá aversão.

Mas o Homem de Java não. Perto da hora do jantar, ele me mandou um WhattsApp: “Bella (ai, que lindo!!), escolhi o melhor restaurante da cidade para nós.” Tia, você sabe o que significa isso? Tá, eu sei que você vai dizer que eu não preciso de convite, que volta e meia eu vou a esse tipo de restaurante, blá blá blá. É verdade. Mas eu tou falando de iniciativa. Homens de Java tomam à frente. Não fui eu quem precisou escolher o lugar ou dizer que queria comer bem. Estava implícito. Ele sabia como tratar uma mulher. Eu só precisava brilhar, escolher um casaco rosa, meias pretas, vestido, batom vermelho e o meu melhor sorriso. O resto aconteceria como mágica. Era a minha noite de cinderela.

Quando no encontramos no lobby, caía uma fina chuva, e ele prontamente se ofereceu para ir buscar um guarda-chuva para me levar até a porta do táxi. Bobagem, pensei eu. Mas me senti uma princesa escoltava por aqueles braços firmes cuidando de cada mecha do meu cabelo para que não molhasse com a garoa parisiense.

O restaurante era acolhedor. Tinha uma decoração de casa de avó rica, com lustres de antiquários ostentando lâmpadas coloridas, tapetes persas, bonecas de louça vindas das mais longínquas partes do mundo expostas em cristaleiras. Nossa mesa era discreta, ficava no fundo do salão, de frente para uma janela decorada com abajures e patos, de frente para um quintal que fazia a cidade parecer um pequeno bairro, esquecido no meio daquela imensidão. Patos. Lembrei mais uma vez da minha aversão aos bichinhos. Mortos, digo.

O garçom apareceu com os cardápios e ele prontamente escolheu o vinho. De Java, claro! Era um especialista.

– Pra comer? – perguntou.

– Eu vou querer uns camarões. E você?

– Pato. E fechou o cardápio despachando o garçom.

Não… tudo menos pato! Como é que eu ia dividir a mesa com alguém comendo pato? E se ele resolvesse me beijar depois de tudo aquilo, o que era até capaz de acontecer, e os fiapos de pato dançando na boca dele viessem invadir o meu palato? Aquilo arruinaria a noite!

Fui sutil:

– Detesto pato.

E ele, sem dar muita bola:

– Ainda bem então que você pediu o camarão. E já engatou outro assunto.

Incomodada com a situação, fui elaborando mentalmente planos para quando o prato (e o pato) chegasse. Havia entre nós uma garrafa de vinho, 2 de água, 4 taças, um vaso de flor e uma vela. De pronto, assim que o garçom chegou com os pratos, antes que ele percebesse, fiz um arranjo na mesa, de forma a construir uma muralha entre ele e eu; assim, eu não conseguiria ver o pato. Ele, quando se deu conta daquilo, se pôs a desfazer a construção: “mas o que é isso? Assim nem consigo ver você direito.” “Ah, é que eu gosto de jantar assim, mais escondida.” Inventei. “Não comigo, Ivy! Tá Louca?” Antes que ele pensasse que eu tava mesmo louca, precisei contar… Sabe quando nas empresas existe o “chinese wall”? Este é o meu duck wall…” – falei bem sem jeito.

Naquela altura, tia, quando eu achei que o encontro ia descambar, que nada!! Ele teve um ataque de riso, desculpou-se pelo pato, respeitou o meu “duck wall” e tivemos uma noite de sonho, até incluindo poemas declamados em javanês e dançamos músicas javanesas românticas pelas ruas de Paris.

Quando chegamos ao hotel, fizemos a despedida de praxe e eu, já escolada com os homens de Java, disse que a gente se via um dia, quem sabe em Java, porque… sim, eu conhecia o ritual, homens de Java não passavam a noite juntos, não se apegavam.

Foi quando ele me surpreendeu: “tá louca de novo? Só se EU fosse louco é que ia deixar de passar esta noite com você.”

Ai, tia Dinorah!! Mas pensa que foi só isso? Ele complementou: “Vou até meu quarto buscar minha necessaire e já subo para encontrar você.”

Tia! Que homem hoje em dia tem uma necessaire? Sabe o que tenho visto dos rapazes que aparecem lá em casa quando pergunto se não vão escovar os dentes? (a) não, amanhã eu escovo em casa; (b) me empresta a pasta que eu dou uma bochechadinha; (c) eu já escovei antes de sair de casa; (d) você tem chiclete? Mas nãaao, tia! Homens de Java têm uma necessaire! Eu tirei a sorte grande.

Pena que, no dia seguinte, era hora da despedida. Por coincidência ou sincronicidade, nossos voos saíam quase no mesmo horário, e do mesmo aeroporto. Seguimos juntos. nos despedimos com um abraço grudado no corpo e a promessa de que tornaríamos a nos ver – em Java, em Paris, no Brasil, em quaquer parte desse mundo.

O voo dele saiu um tantinho antes que o meu, e foi quando me dei conta que a necessaire dele tinha ficado na minha bolsa na hora da confusão de fechar as malas. Não resisti à curiosidade de ver quais era as colônias que perfumavam aquela pele, quais os segredos daquele sorriso tão branquinho. Até que encontrei uma pequena caixinha. Curiosidade já estava ali mesmo, segui em frente. Ué… uma caixa tão pequenina. Seriam comprimidos de Viagra ou de Cialis? Mas era algo que brilhava. Enfiei os dedos até o fundo da caixa: Era uma aliança de casamento. “Antonella – 28-05-03”.

Tia Dinorah, como pode perceber, isso não é mais um postal, é uma carta longa Voltairiana, porque não tive tempo de escrever uma carta curta.

Tia, Paris à vezes é uma festa, mas esses dias eu venho tomando conhaque. Com café.

Hoje é 14 de maio de 2018. Aniversário de mamãe. Aniversário de Caetano. Não é fácil. É estranho.

(Ivy Cassa)

#ivycassa #portasabertas #portasabertasivycassa #autoficção

A mãe e a mãe da mãe

A minha mãe virou mãe aos 33 anos de idade.

Por uma dessas coincidências numéricas – não sei se Jung explicaria -, foi 33 anos depois que eu fiquei viúva, que ela ficou viúva, e que, por conta disso tudo, eu virei mãe. Mãe dela.

– Mãe, voce precisa se cuidar! O que fizer por si mesma, estará fazendo por mim. No mínimo 20 minutos de esteira por dia – todo dia, né mãe! 20 minutos em seguida, mãe. Não adianta fazer 5, vai até a cozinha comer bolo, mais 5, bota roupa na máquina… são 20 num tiro só. Passo de quem tá andando na praça da Sé, e não andando na procissão!

– Mãe, olha esse prato! Ou é pão, ou é batata, ou é macarrão… escolhe! Num dá pra fazer orgia dos carboidratos.

– Mãe, PRECISA colocar açúcar no café? E no chá? Não, mãe… eu sei que de amarga já basta a vida, mas deixa as calorias pra outras coisas mais gostosas!

– Mãe! Você já viu QUANTO sal tem no seu prato? Mais um pouco e o garçom vai trazer alho e pimenta, achando que você tá fazendo macumba!

– Mãe, hoje a gente vai tomar espumante no café da manhã. É, vai! Tamos de férias! Tim tim!

– Mãe, bebe mais rápido, né! Já tou quase enxergando uma larva de aedes aegypti nessa taça.

– Mãe, claro que vai comer esse canolli antes do almoço! Sabe quando a gente vai voltar pra Palermo? Sei lá eu!! Dane-se o almoço, bota isso pra dentro!

– Mãe, precisa fazer os exames de rotina, já fez? Mãe, rotina é todo ano, não a cada 15 anos! A Dra. Veneranda? Mãe, eu aposto que ela já abotoou o tubinho de madeira faz tempo! Você não a vê desde que ela fez o MEU parto – e ela já era velha. Vou te passar o contato da minha médica, a Dra. Mônica. Mãe, você foi lá? Só marcar a consulta e andar com os exames na bolsa não adianta. Mãe, a Dra. Mônica fala pra toda paciente que a gente tá linda e saudável! Agora VAI FAZER OS EXAMES!

– Mãe, quem foi que te destratou na clínica? Aquela enfermeira morena? Pois amanhã na hora do almoço eu vou até lá pra gente resolver isso. Quero ver ela repetir o que falou pra você na minha frente.

– Mãe, a dona da clínica mandou avisar que vai te indenizar pelo “incidente”.

– Mãe, passei pela banca de jornal e, adivinha: comprei Luluzinhas pra vc!

– Mãe trouxe presentes de viagem pra você: o pijama do Pato Donald, umas meias do Mickey, chocolates Lindt, umas galochas e um casaco corta vento. Mãe, tooodo mundo precisa de galochas! Claro! Pra saltar nas poças de água! Eu sei que o casaco é meio volumoso, mas é necessário.

– Mãe, já tomou as 20 gotinhas do Previgrip? As da tarde! São 20 por período do dia, vai! E a vitamina C?

– Mãe, fica sentadinha aí nesse café que eu vou demorar na loja. Mas não coloca muito açúcar no café! Não, mãe! Eu não sei quanto tempo vou demorar. A princípio, eu só vou comprar um massageador elétrico, mas pode ser que no caminho eu descubra outras coisas que esteja precisando.

– Mãe, veja que maravilha esses lençóis de 500 fios egípcios! E essas pantufas de unicórnios! Essas taças de cristal. Como eu vou carregar? Na mão, ué! Junto com essas lâmpadas pra varanda. Comprei esse casaco de pele pra você! É sintético, ecológico! Eu sei que você já tem um, mas assim pode sair com outro nas fotos do Instagram! Ah!! E mais esse tênis de macaquinho! Que combina… tcharans!! Com o meu de coelhinho!

– Mãe, esse tipo Clarck Gable aí do seu Facebook tá a fim de você. Claro, mãe!! Já viu o horário que ele te dá as curtidas? Os comentários? Ele tá te stalkeando!

– Mãe, você precisa de fotos novas pro facebook. Assim, vai andando e vira pra mim, tipo sensualizando, sabe? Não, mãe! A cabeça pra cá. Esconde essa mão. “Arreta” a coluna. Barriga pra dentro. Andou! Mãe!! Mãe!! Tropeçou?? Machucou??

– Mãe, hoje eu vou te ensinar a fazer Boomerang com as fotos. É, você pega uma coisa que se mexe, tira, ela vem e vai, como se fosse mesmo um Boomerang. Não, mãe… não adianta fazer Boomerang da lua… 🙄

– Alô. Mãe…? É. Tou meio murchinha hoje… sei lá. Tem dias em que fico mesmo… Acho que tou com cólica, dor na vida… Tá, qualquer coisa eu ligo.

Campainha.

– Oi, mãe!! Que bom que você veio! Sopa de grão de bico! E sem carboidratos!! Tomate em cubos! Água de coco! Pitaya picadinha! O livro novo da Tati Bernardi! Obrigada, mãe!! ❤️

(Por Ivy Cassa)

Sobre amor e ovinhos de Língua de Gato

Era semana santa. Juju estava saindo com Kadu há 2 semanas. Santo milagre! 2 semanas não é só pegação. É quase união estável nos dias de hoje!

Ligou para a melhor amiga:

– Dani, sabe o que ele fez outro dia? Pegou na minha mão depois que a gente acabou de… você sabe… E declamou: “Se você quer ser a minha namorada… Ah que linda namorada Você poderia ser”.

– Juuuuu!! Você ganhou na loteria! Isso nem é pegação!!! É na-mo-ro!! E o que você respondeu?

– Ah, eu sou discreta, né? Fiz aquele ar de que não era comigo, porque a gente não pode entregar o ouro pro bandido! Me fiz de difícil, claro! Daí, no dia seguinte, acordei cedinho antes dele, passei o corretivo nas olheiras, grudei os cílios postiços, passei um lápis cor de boca, dei uma bochechada no Cepacol e corri pra cozinha. Quando ele acordou, adivinha! Eu tinha feito ovo frito pro café da manhã naquela forma que a Mari me deu! A mesa toda decorada. Tudo mensagem subliminar, sabe? Os guardanapos que comprei em Nova York com motivos de São Valentim. E morangos, a fruta do amor!

– Não acreditooo! Armas baixas!! E você usou aquela forma em molde de coração??? Mooooorri!!

– Mensagem oculta, né miga. A gente não pode ser assim tão óbvia.

– E ele???

– Não comentou nada… você sabe como os homens são durões. Comeu o ovo sem dizer uma palavra. Depois, os morangos. Caladinho. Mas aí vem o detalhe!

– Me conta!

– Eu tava indo pro RJ no mesmo dia, dar aquele curso de Direito Regulatório… e ele, ao invés de ir embora, pediu pra ficar! Não… não é que ele pediu pra ficar, do tipo “quero economizar uma diária de hotel”. Ele quis ficar tipo “eu quero ficar aqui pra sempre, sabe??” Era amor, Dani! Eu me arrepio só de falar!

– Sei!! Foi o ovo!! Miga, eu tou sentindo!! Vocês dois… ai!! Eu quero ser madrinha!

– Não só… eu a-pos-to que ele quis ficar sozinho no meu apartamento pra me fazer uma surpresa de Páscoa!

– Ai, migaaaaa!! Vc contou pra ele que adora Lingua de Gato da Kopenhagen?

– Naaaao… nem precisei, né, Dani! Perspicaz como ele é, aposto que abriu minha gaveta de chocolates assim que saí e fez uma pesquisa de campo.

– Juuuu! Você pensa em tudo!

– É! Daí, vou chegar no domingo de Páscoa, e ele vai ter enchido a casa de pétalas de rosa! Vermelhas, porque não é bobo! E vai deixar um caminho de ovinhos de língua de gato desde a porta de entrada até a cama. Com a colcha toda estiradinha, do jeito que eu gosto. E, em cima da cama, uma camisola La Perla. Com um bilhete: você é mais doce (e gostosa) que Língua de Gato. Daí já foi, né amiga?!

– Ju, você é diabólica!

– E sabe coooomo eu vou recompensar?

– Naaaaao!! A-qui-lo?

– Sim!! A fantasia de coelhinha que comprei em Las Vegas!

– Ai, Ju! Então é casamento!!

– Te conto assim que voltar. Torce por mim!

No domingo, Juju voltou de viagem. Entrou pela porta de serviço, porque estava com a mala. Não deu de cara com um rastro de ovinhos pelo chão, mas, sim, com a pia cheia de louças daquele jantar da quinta feira e de mais umas refeições das quais ela nem tinha participado. “Acho que ele nem perdeu tempo com tarefas domésticas por causa da surpresa!” – pensou. Desfilou feito Gisele Bubdchen pela sala de jantar. No caminho, deparou-se com duas xícaras de café sujas sobre a mesa, um punhado de guardanapos amassados e dois pratos cheio de migalhas. Juju tinha migalhofobia, mas era mais forte que aquilo. Seguiu em frente em busca de um objetivo maior. Tá! Ele nem teve tempo! Que homem! Uau!

Juju, apressada e ansiosa, correu até o quarto, aquele ninho de amor do outro dia. A cama estava desarrumada e os lençóis desalinhados exalavam cheiro de suor e havia pêlos – que não eram dela! A colcha de algodão egípcio 500 fios, comprada em Nova York, estava arremessada a noroeste do criado mudo amarelo. Um pacote de camisinhas rasgado jazia ao lado da cama, resgatando a lembrança daquela noite. Não… não era possível’ Onde estavam os ovinhos??

Juju caminhou num passo arrastado até a gaveta de chocolates. Não havia uma única língua de gato, nem as de seu estoque pessoal.

Nisso, tocou o celular. Era mensagem de Kadu. Juju imaginou, com uma quase excitação:

– “Feliz Páscoa?? Obrigado pela hospedagem! Seu ovo de língua de gato está escondido atrás do sofá??”.

Mas não… Kadu apenas dizia:

– Ju, nunca tinha provado café com língua de gato. Tesão!! Precisa abastecer o estoque. Qualquer dia colo de novo por aí. Kadu.

O Natal da Joana Leopoldina Francisca Bragança e o da Kiki

Em sua redação de fim de ano, Kiki escreveu na primeira linha:

“O mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que têm espírito natalino e as que não têm.”

A professora não entendeu de pronto. Talvez, seria um pouco precipitado afirmar que Kiki, pelos seus tenros anos de vida, não tinha espírito natalino, mas quem conhecesse sua história haveria de compreender de certa forma suas razões. Nada grave; nenhum falecimento ou doença. Alguns dissabores foram suficientes para Kiki pegar alguma aversão à data.

Joana Leopoldina e Kiki cresceram na mesma rua e estudaram na mesma escola, mas a primeira se desenvolveu contando histórias fantásticas dos seus natais, que só não eram mais cheios de luz do que os que Kiki via nos anúncios de viagens da CVC para Gramado. A menina se gabava de nunca terem faltado a ela convites para a ceia do dia 24 ou o almoço do dia 25.

Na vida de Kiki, que era filha de uma filha única e, portanto, primos só tinha de um lado, os convites não eram tão fartos. Todo ano passava a véspera na casa de um dos avós e o dia na casa dos outros. E fazia parte da cesta de natal uma desavença entre os pais, porque a avó paterna sempre alertava seu pai sobre a sua idade avançada:

– Se este for meu último natal, você há de se lembrar no meu caixão que estava lá com a sua sogra e não comigo.

Foi assim também que Kiki aprendeu com a mãe que as mulheres precisam tomar decisões na época de natal: engolir sapos ou a cara amarrada do marido na ceia.

Na família de Joana Leopoldina, sobravam tios e primos que, segundo ela, eram os próprios protagonistas dos comerciais daquela antiga margarina. Kiki inclusive desconfiava que a tal margarina havia se inspirado na família de Joana Leopoldina para criar tais comerciais. Nunca houve relato de quiproquó. Joana Leopoldina narrava, com orgulho, em suas redações de “minhas férias”, o momento em que aquelas dezenas de primos e tios reunidos pelo mais puro amor davam as mãos em paz na hora da refeição (em que nao havia uma única uva passa no arroz) para entoar cantigas natalinas e orar.

Já nos natais de Kiki, a hora da comida era o retrato do pandemônio. O avô destampava as panelas e desembrulhava as assadeiras antes dos convidados chegarem – porque cada um vinha numa hora, e comia antes de todo mundo. A avó, quando percebia, distribuía-lhe tabefes nas mãos, sobretudo quando ele arrancava uma das coxas do peru antes de servir à mesa e tirar “A foto”. Mas o avô não ligava – ou porque se fazia de surdo, ou porque já estava surdo mesmo. Deitava no sofá e dormia com a mão dentro da calça do pijama, antes mesmo dos outros convidados chegarem. O pai de Kiki se empolgava com as batidas de coco e maracujá da mesa de aperitivos e a mãe dela ia ficando aflita com tamanha empolgação. Suplicava para a avó servir logo a comida, porque era uma falta de respeito as tias Nazaré e Veruska chegarem tão tarde! A ceia acabava sendo servida pela metade.

Quando tia Nazaré chegava naquele sossego, de ônibus, carregando uma maionese que estava pronta sei lá desde que hora, a mãe de Kiki logo alertava a filha pra ficar longe daquilo, que devia estar cheio de salmonela. Kiki nem ligava. Ela não ia comer de qualquer jeito – onde ja se viu colocar maçã em maionese? Só a tia Nazaré mesmo!

Nisso, chegava tia Veruska, com os gêmeos e o resto da comida. Brava, muito brava! Porque o tio Gênesio nao ajudava a colocar um-sa-pa-to nas crianças! E ela tinha passado a tarde enfiando cravo em tender, pra quê? Pra chegar na ceia e ja estar tudo comido. E o peru só ter uma coxa! Que era feito da outra coxa do peru? Aposto que tinha ficado pro filho preferido, o pai da Kiki, lógico! Os 3 irmãos passavam a meia noite imbuídos do mais genuíno espírito natalino.

Voltemos ao natal da Joana Leopoldina…

A decoração narrada remetia quase a uma réplica da Rua Normandia – naqueles tempos em que tinha até chuva de neve artificial. Os presentes – meros detalhes para seres tão evoluídos espiritualmente – eram sempre um sucesso, pois cada um conhecia exatamente o gosto do outro familiar. O Papai Noel tinha feições tão verídicas que parecia mesmo ter descido delicadamente de um trenó vindo da Lapônia.

Os natais de Kiki eram um pouco diferentes. A começar pela decoração. Os enfeites, assim como seus ancestrais, também eram veteranos sobreviventes que deviam ter passado por algumas gerações da sua família e resistido à primeira guerra mundial e, talvez, também à segunda, no meio do bombardeio. O presépio, na verdade, era um mix de 2 ou 3 presépios que formavam um conjunto pouco harmônico, inclusive quanto à proporção. O sapo era do tamanho de Jesus. Havia não só uma, mas duas Marias, e nem um José. Aquilo devia ser um prenúncio dos tempos modernos. Mas o que mais intrigava Kiki era um carneiro que, indubitavelmente, era um herói de guerra, pois só tinha 3 patas e, mesmo assim, havia sobrevivido e ainda provia calor àquele Jesus que jazia sem manjedoura, porque sabe-se lá em qual batalha ela ficou perdida.

Os presentes na família de Kiki eram lembrancinhas. A tia Veruska sempre improvisava alguma coisa pra um convidado que aparecia de última hora:

– Aninha, peraí que vou até o armário “escarafunchar” alguma coisa pra dar pro namorado novo da Paula.

“Escarafunchar”. Kiki adorava aquela palavra.

Velas, sabonetes e aromatizantes de feiras vagabundas de artesanatos, além de caixas de bombons artesanais, tudo na família de Kiki era reciclado.

– Vai essa caixa de bombons artesanais que a dona Jandira fez pra ele. Escreve aí: Joel. Emenda com Daniel, que é o ex. Essa aí também troca tanto de namorado que a gente nem dá conta. Nem dá pra perceber.

Quando o Papai Noel chegava, com uma máscara que certamente tinha sido comprada em uma loja de Halloween e não de Natal, as crianças se escondiam no quintal.

– Que que a gente fez pro capeta ter vindo ao invés do Papai Noel? – perguntou um dos gêmeos.

– Foi aquela bola que você chutou na janela da dona Odila. Eu avisei. – respondeu o outro.

Mas a máscara era sempre a mesma, porque a tia Veruska. achava o máximo.

Depois, quando todos os avós de Kiki morreram, os convites deixaram de existir. Tia Veruska sumia no começo do mês de dezembro só pra não ter de organizar o natal. Não queria nem se fosse na casa da mãe da Kiki. Tia Nazaré também não dava o ar da graça.

Muito sem jeito, Kiki perguntou para Joana Leopoldina se ela não podia, pelo menos naquele ano, tomar parte daquela tão famosa festa de natal. Pelo menos uma lembrança a menina haveria de ter de um natal dos sonhos.

Chegando lá, Kiki foi recebida por dona Irene, a mãe de Joana Leopoldina, com bobs na cabeça.

– Quem é essa, minha filha?

– A Kiki, mãe! Lembra dela? Minha amiga de infância.

– Claro!

E dona Irene correu lá pra dentro. Ainda deu tempo de ouvi-la dizer pra dona Gertrudes, a governanta:

– Deixa eu ir lá dentro escarafunchar qualquer coisa pra essa gente não sair de mãos abanando. Olha lá na lata de lixo se tem algum papel que dá pra reaproveitar. E se tem durex também, que o da casa acabou. Olha esse pedaço aqui que veio embrulhando a torta. Já separa que serve.

Um pouco antes da ceia, Kiki estava ansiosa pelo momento da oração e da cantoria, de que Joana Leopoldina tanto se orgulhava.

– E então, dona Irene? Quem é o cantor da família?

– É o tio Orestes. Mas hoje acho que ele não está muito inspirado pra puxar a reza…

Kiki olhou de canto de olho para o tio, que fatiava um pedaço de pernil defumado de porco em formato de bola, enquanto cantava, encarnando Elves Presley: “Love me Tender, love me true… Never let me go”

Kiki não conseguia entender… Talvez o coro começasse mais tarde.

Mas não houve nem coro nem reza. Foi um salve-se quem puder quando colocaram o peru sobre a mesa. Salvou-se quem conseguiu arrancar as coxas primeiro. Dois primos saíram no braço e uma das tias passou a noite de cara feia com dona Irene.

Chegou a hora da troca dos presentes. A mãe de Kiki havia caprichado. Tinha comprado uma camisa da Dudalina para Dona Irene. Um pingente da Swarowsky para Joana Leopoldina. Um jogo para Felipe José, o irmão de Joana Leopoldina. E uma garrafa de Blue Label para o pai dela.

Entrou o Papai Noel. Ele não usava máscara, e Kiki achou aquilo fantástico.

Kiki olhou com atenção para tentar reconhecer o bom velhinho. Ele não coincidia com aquele exemplar vindo da Lapônia dos seus sonhos, mas trazia algo familiar.

Papai Noel chamou Felipe.

– Eu!!

Dona Irene conteve o filho.

É Fernando, Papai Noel. Veja a setinha.

Fernando era o irmãozinho de Kiki. Kiki percebeu a rasura no papel de presente, onde se lia, de fato, na versão original do pacote, Felipe.

Fernando abriu o pacote. Era um boneco do Hulk. Fernando, no seu jeito pueril, virou para o Papai Noel e reclamou:

– Eu já tenho esse presente.

Nisso, o irmãozinho de Joana Leopoldina, Felipe, ingressou na conversa:

– Eu também. Por isso minha mãe escarafunchou no armário e botou no saco do Papai Noel pra dar pra você.

– Ah! Mas foi a minha mãe que deu o meu pra você no último aniversário. Esse boneco já era meu e eu não gostava.

Dona Irene e a mãe de Kiki, visivelmente embaraçadas, pediram para o Papai Noel dar seguimento.

Mas Papai Noel estava muito longe da Lapônia. Ele estava era pra lá de Bagdá, segurando um copo de whisky. Ele voltou a cantar Love me Tender, chamou a mãe de Kiki e, ao invés de lhe dar um presente, tascou-lhe “O beijo”.

– Tio Orestes!!

Foi aquele furdunço.

A família de Kiki decidiu ir imediatamente embora de Bagdá, ou de Belém, ou da casa de Joana Leopoldina Francisca Bragança, tanto faz. Não havia mais espírito natalino naquela noite.

A mãe de Kiki ainda entrou no carro meio atordoada, dedilhando no banco da frente “And I love you so”…

Depois daquele dia, Kiki escreveu no seu caderno de redações:

“O mundo se divide em três categorias de pessoas: As que têm natais fantásticos. As que fingem que têm natais fantásticos. E as que ficam caladas.”

Ivy Cassa

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O baile de máscaras e a autoficção

Vestido verde escuro longo com uma fenda na perna esquerda, um corpete dourado que revelava um decote nem tão discreto. Um par de sandálias douradas combinando com a bolsa e os brincos de bolinhas que faziam conjunto com a pulseira. E “aquele anel” de esmeralda. Mas, o que completava o look não era o tal anel – embora ele caísse realmente bem naquele contexto. O grand finale ficava por conta de uma máscara. Dourada, com uma delicada borboleta na lateral direita e uma fita preta grossa que a amarrava em um arranjo meio preso dos cabelos lisos que foram cacheados só para aquela noite e tinham algum desejo de desmaiar a qualquer momento.

Não era todo dia que aparecia programa assim: um baile de máscaras! Na verdade, eu tinha esperado 35 anos da minha vida para ser convidada para um. Aquele seria O grande dia. Só podia ser um sinal!

– Nina, tem certeza que meus cílios não vão desgrudar no meio da festa?

– Tenho!

– Conferi mais uma vez no espelho.

– Mas dá pra você levar a colinha na sua bolsa? É que esse aqui ao lado da borboleta cismou de ficar raspando nela. E na minha não cabe mais nada.

– Dá aqui. Agora vamos. Já estamos atrasadas.

– Nãaaao! Primeiro vamos tirar umas fotos.

– Ivy!! A gente prometeu que chegava pro coquetel! Deve estar cheio de príncipes mascarados perdidos e nós ainda aqui.

– Tá bom!

– Fiz só uma selfie meio sem jeito no corredor e já saí correndo atrás dela até o elevador.

Chegando lá, fomos recebidas de pronto por um garçom também mascarado servindo champanhe. Isso é o que chamo de uma boa recepção.

Adentrando o salão, a sensação era de que tinha mergulhado em um baile do século XVII. Eu estava em Versailles, na Galeria dos Espelhos. Minha vontade era de rodopiar e dançar uma valsa vienense. Tá, talvez não dançassem valsas vienenses na França. Tá, eu estava no Brasil e estava tocando uma música da Anitta. Mas… com um tanto de imaginação e algumas taças de champanhe, eu podia ir onde quisesse. Agora, era só encontrar onde estava o meu príncipe perdido.

Felizmente, os anos tinham passado e eles não usavam mais aquelas perucas da moda lançadas por Luís XIV. Por outro lado, infelizmente, eles não usavam mais saltos Luís XV, o que dificultava um pouco a vida de quem, com aquelas sandálias, já ultrapassava o limite do 1,80m. Mas, nem tudo eram más notícias: além do embelezador natural que alguns homens ganham depois de 2 taças de champanhe, eles estavam mascarados, o que lhes dava muitos pontos de vantagem.

– Ivy, mira nos que têm dentes (ou a maioria deles) e não têm aliança. A noite será um sucesso! Cheers! – profetizou Nina.

Ela logo se jogou na pista. Eu, mais recatada, sentei perto do bar e fiquei observando o movimento.

De repente, uma mão veio pelo meu ombro junto com uma voz:

– Me daria a honra dessa contradança?

– Que susto! – Saltei da cadeira. A gente se conhece? – perguntei para aquela imitação curiosa do Zorro.

Ele não era Antonio Banderas. O sorriso passava longe mas, pelo menos, tinha os dentes incisivos, molares e pré molares (que foram os que consegui enxergar), e ainda qualquer coisa de familiar.

– Vem. – E me puxou pela mão.

Aquilo não era exatamente música pra se dançar a dois, embora fosse até adequada para o tema da festa. Era uma da Pitty e dizia coisas como “Tira a máscara que cobre o seu rosto Se mostre e eu descubro se gosto Do seu verdadeiro jeito de ser”.

Ele não era propriamente um pé de valsa, mas eu já tinha dançado com piores.

– Como anda a vida? Notei que não tem escrito no Blog. Correria de fim de ano?

– Você é meu leitor?

– Claro, Ivy.

Fiquei com uma pontinha de vaidade. – Puxa! Achava que nem era famosa e já tenho um leitor que me reconhece numa festa. E isso eu estando mascarada!

– Como é seu nome?

– Grumercindo.

– Gumercindo?

– Não, Grumercindo mesmo. Mas você também pode me chamar de Agente AK 5078. Ou, simplesmente, de Gru. Huhuhu!

– Gru??? – Puxei a máscara do Zorro. O que você está fazendo aqui?

– Averiguações… e deu uma piscadinha. Você está sob investigação, lembra?

– Eu ainda não entendi o que está sob investigação. Nem do que sendo acusada. E acho que não preciso dançar com você por isso. – Cruzei os braços e saí da pista pisando duro, em forma de protesto.

– Aaaaah, Ivy! Não seja assim. Vem cá. Precisamos conversar sobre o seu livro.

– Não tá satisfeito ainda? Já roubou quase metade dele! Deve ter tirado as suas conclusões.

– O problema é bem esse. Vamos lá no bar um pouquinho?

– E eu tenho escolha? É uma condução coercitiva?

– É um convite.

Chegando lá, Gru tirou do bolso algumas folhas amassadas do manuscrito do meu livro.

– Estou muito confuso lendo isso tudo aqui. Não entendi até agora se isso é realidade ou ficção.

– É autoficção.

– Fiquei na mesma. – Disse, com um ar de dúvida.

– É a minha história, com pitadas de ficção.

– Mas tudo que você conta aqui aconteceu?

– Quem sabe?

– Você sabe.

– Mas não importa ao leitor. Não é uma biografia minha.

– E por que você não escreve uma biografia? Tem algo a esconder? Páginas que jogou pra baixo do tapete?

– Porque não me interessava esse gênero. Eu queria trabalhar de outra maneira.

– E por que então não escreve ficção então? Você me deixa confuso!

– Porque eu queria colocar elementos da minha vida e, por outro lado, queria fazer um jogo com o meu leitor. E, para isso, uso os meus personagens, que trazem pontos de vista diferentes ou sustentam as minhas opiniões para convencer o leitor da minha.

– Você está manipulando tudo! É fraude!!

– Gru! Eu não preciso ter um compromisso com a verdade. Há pedaços de histórias reais com recursos de linguagem que as tornam fictícias.

– É tudo mentira!!

– Não!! Há uma deformação de fatos por meio de artifícios. Mas o pano de fundo é verdade. Eu não preciso escancarar a minha vida. E, às vezes, a realidade, quando distorcida pela ficção, fica mais interessante do ponto de vista literário.

– E no seu dia a dia você também faz autoficção? Digo… se estamos em uma roda e você conta uma história pra essa Tati, por exemplo… a história é verdadeira?

– Sim! Eu sou eu na vida real e autora quando escrevo.

– E a Tati, o Carlão, essas pessoas com quem você conversa, existem?

– Quem sabe?

– Basta!!

– Essa fala é do Carlão. – risos.

– Você parece aquelas crianças que conversam com amigos imaginários.

– E que mal há nisso?

– Só falta dizer que eu também sou produto da sua imaginação.

– Será?

– Gru se beliscou. Eu acho que eu existo.

– Meus leitores também já acham. Assim como acham que meu porteiro existe, o síndico, os shampoos Cabelícia… Gru… – me aproximei dele e passei a mão no seu rosto. Tirei seu chapéu. Tá vendo essa máscara? Quando você coloca, você é o Zorro. Imagine que ela é a sua autoficção. Quando você tira – desamarrei a fita -, você volta a ser o Gru. O Zorro tem um pouco do Gru. Eu consigo ver o Gru pela máscara. Mas, hoje, aqui nessa festa, com chapéu e máscara, você pode ser o Zorro. É como no meu Blog. É como no meu livro.

– Você me embaralhou ainda mais, Ivy. Você definitivamente não bate muito bem, como diz a Dona Interpol.

– Gru, o pacto que tenho com meu leitor não é o da verdade, é o do prazer proporcionado pela leitura. O leitor não terá condições, em princípio, de fazer uma investigação profunda para saber se tudo que está escrito no meu Blog ou no meu livro aconteceu ou não

– Não?

– Não.

– Então aquelas coisas que eu andei lendo…

– Gru, eu vou ler um trecho de um poema bem conhecido pra ver se você entende melhor do que estou falando. Abri a bolsinha, peguei o celular e procurei no Google:

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente”

– Percebe, Gru? Gru??? Gru??????

Mas ele já tinha sumido. Certamente, pegou suas botas super saltitantes e escapou quando viu a Nina chegando no balcão, pra não ter sua identidade revelada. Outros, dirão ainda que Gru jamais foi àquele baile e que tudo não passou de delírio da autora.

– Ivy?? Tava aqui sozinha no celular em plena festa? – perguntou a Nina.

– Tava lendo um poema do Pessoa.

– Isso não é lugar pra poetar! Vamos pra pista. Vai arrasar com esse vestido! Tá cheio de bons partidos.

Aceitei. Nina me puxou pela mão.

– O que é isso? Tá segurando uma máscara do Zorro? De quem é?

– Ah… um amigo esqueceu enquanto conversava comigo…

O ciclo da vida

Era sábado de manhã. Minha mãe entrou no quarto:

– Vivi, já são 11h. Precisa levantar e comer alguma coisinha.

– Ai, mãe… só mais 5 minutinhos.

– Levanta. Tem hora no salão de beleza daqui a pouco, não vai sair de estômago vazio.

Bem a contragosto, saí da cama. Tinha figo cortado e bisnaguinha com requeijão na cozinha. O suco de laranja ela espremeu na hora.

– Precisa beber?

– Precisa. Tem vitamina C.

Nunca fui muito chegada em café da manhã.

Coloquei meu vestido florido comprido que escondia minhas pernas, a camisetinha branca por baixo, que disfarçava que eu mal tinha peitos, e os keds brancos, que encobertavam meus pés.

Chegando no salão de beleza, escolhi o esmalte: Misturinha. Esmalte sempre tinha de ser branco.

– Vai sair hoje? – perguntou a dona do salão.

– Vou à matinê do Moinho Santo Antonio.

– Matinê com esse tamanho?

– É que só tenho 15…

Fiquei pensando: “E precisava ter crescido tanto? Veja a Dani. 1,50m. Deve ter, no mínimo, 25 cm a menos de pernas, de braços, de tudo. Claro que, condensando as coisas, ficou mais fácil ter coxas, ter bunda, ter peito. E que eu faço com os pés? 37! Minha mãe calça 35. Meu pai, 42. Se eu, com 15, já estou por aqui, imagina quando chegar aos 30? Já vou estar calçando uns 50, no mínimo!”

Voltei pra casa. No caminho, passei na banca e comprei a Todateen. Na capa tinha o Rodrigo Santoro. Cabeludo. Eu estava na fase dos cabeludos.

Liguei pra Gabi, minha melhor amiga de todo o mundo pra sempre.

– Que horas sua mãe passa aqui?

– Minha mãe disse que tá muito cansada e não vai poder levar. Não dá pro seu pai levar?

Ferrou. Era dia de jogo do Palmeiras. Nem ia tentar.

– Dani, será que o seu pai podia dar a carona?

Santo pai da Gabi! Tava tudo resolvido. Dani, Gabi e eu. As melhores amigas do mundo. A Dani e a Gabi eram as duas únicas pessoas que eu já tinha deixado ler o meu diário. Que sabiam exatamente com quantos meninos eu já tinha ficado e o ranking de cada um. E vice versa. Aquele tipo de amizade que a gente sabe que nunca vai acabar na vida.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Abri minha Toda Teen e fiz um teste: “Ele está a fim de você ou é só enrolação?”

Em uma escala de 0 a 10, o Gus marcou 5 pontos: “Você tem grandes chances, mas ele ainda precisa ser mais decidido nas suas atitudes.”

Liguei pra Gabi. Liguei pra Dani.

– Acho que o Gus tá a fim de mim!

Li meu horóscopo. “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Liguei de novo pra Dani e pra Gabi.

– A única chance do Gus não ficar comigo hoje é não ter chegado o momento ainda.

A Gabi fez outro teste. “Ivy e Gus, 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.”

– O Sapino não falha! Deu paixão! É hoje!!

Fui para o quarto, liguei meu walkman e coloquei a fita da Shakira: “Estoy Aqui”. Fiquei tentando lembrar os passos do clip que tinha visto na MTV, repetindo na frente do espelho. Bati o cotovelo direito no armário. Dizem que os adolescentes se batem muito nos móveis, vai ver era isso. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu ia conquistar o Gus.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Calça jeans. Enquanto eu não criasse pernas musculosas, saias nem pensar! A calça devia ser de marca, por que as roupas precisam ter selo de qualidade. Onde não se vê uma bunda, tem de se enxergar uma etiqueta: Ellus. Uma blusa preta de renda. Preto, sempre, porque é sexy. Bota, porque encurta as pernas e encolhe os pés. Mas sem salto, pra eu não ficar ainda maior que os meninos, nem muito maior que o Gus. Perfume: Thaty. No bolso, ballas Halls pretas.

Às 17h a mãe da Dani chegou. Fomos buscar a Gabi.

Chegamos ao Moinho e estava aquela muvuca na porta.

Um desfile de Handbooks, Sideplays, OPs, Fioruccis, 775, Big Johnson´s, Nautica, Gap. Lá dentro, o cheiro de cigarro tomava conta.

Começamos a dançar. Encontramos o Fer, o Neto, o Dani e o Gus. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana: Gus tinha me dado um bombom – e não era qualquer bombom. Era um Serenata de Amor. Eu grudei o papel na minha agenda da Pakalolo bem no dia: 13 de maio. E ele escreveu embaixo: Amor com amor se paga. O Neto cismou de vir dançar do meu lado. Ai, Neto! Você não é o Gus!! Você vai atrapalhar a minha noite. Fiz sinal pra Gabi e pra Dani – quando a gente coçava a cabeça, era hora de ir até o banheiro pra fugir de qualquer coisa. Mas a Dani não estava lá. Só a Gabi foi comigo.

– Que saco, o Neto não me largava!

Nisso, começou a tocar Shakira.

Gritamos histéricas e saímos correndo do banheiro. Era a minha hora de brilhar.

Quando chegamos ao grupo, o Gus também não estava lá. Ué. Cadê o Gus? E cadê a Dani, que continuava sumida? Foi quando o Fer colocou a língua pra fora, pra um lado e pro outro, e fez uma mímica, apontando pra parede, onde o Gus estava praticamente engolindo a Dani.

Imediatamente, comecei a chorar. A Gabi, minha melhor amiga de verdade pra toda a vida, quis bater na Dani, mas eu não deixei. O Fer segurou. O Neto insistiu pra me beijar, já que eu não ia beijar o Gus. Eu não quis. O Neto quis então beijar a Gabi. A Gabi também não quis. O Neto acabou ficando com uma menina desconhecida e a Gabi ficou com o Fer.

Comprei uma ficha e fui até o orelhão. Liguei pra minha mãe.

– Já acabou o jogo do Palmeiras? Dá pra vocês virem me buscar? É que não tou passando muito bem.

“Dani e Gus. 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.” Deu amor. Amor era mais que paixão. Mas a Dani era uma vaca mesmo assim.

*************************

Era sábado de manhã. O despertador tocou. Eram 11h. Eu precisava ir à manicure, que estava marcada pras 11h mesmo. Saí correndo e sem café da manhã, já que não tinha nada na geladeira, além de vinho branco e champanhe.

Coloquei a primeira roupa que apareceu pela frente. Levei meu próprio esmalte, o vermelho de sempre.

– Qual é a festa de hoje? perguntou a dona do salão.

– Aniversário de um amigo.

– Não sei como não cansa de tanta festa.

– Tou exausta. Queria ter o pique dos meus 15 de novo. Só nessa semana não almocei 2 vezes e virei uma noite em claro.

Do salão, fui combinando sobre a festa com a Nina, a Tati, a Mari e o Carlão no grupo de WhattsApp “Bebedores dançantes”.

– Vamos todos de Uber. Se quiserem fazer esquenta, passem em casa antes.

Tati: – Acha que é hoje que o Rick vem falar com você? – perguntou a Tati.

Eu: – Tava aqui na cabeleireira lendo meu horóscopo: “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Carlão: – E quem acredita nessas bobagens? O cara é um babaca, todo mundo sabe.

Mari: – Se até hoje, depois de 3 festas que ele encontrou com você, ele não fez nada, eu não botaria muita fé.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Entrei no facebook e fiz um teste: “pessoas que podem mudar seu futuro”: E quem saiu? “Rick.” Rick?? Será??

Compartilhei no grupo dos Bebedores dançantes.

Eu: – Acho que o Rick tá a fim de mim.

Fui para o quarto. Abri o Ipad e coloquei o clip do Shape of You. Fiquei repetindo a coreografia na frente do espelho do closet. Bati o cotovelo direito na porta do armário, mesmo não sendo mais adolescente. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu iria seduzir o Rick na pista de dança.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Vestido vermelho curto com um decote. Ah, como 19 anos de musculação tinham facilitado as coisas. Só por precaução, fiz 3 séries de 20 agachamentos antes de sair. Coloquei uma sandália preta tamanho 37 de salto alto, mas não muito alto. O Rick não era um jogador de basquete. Perfume: Coco Mademoiselle Chanel.

Às 22h os bebedores chegaram. Às 23h, o Uber chegou.

Um desfile de Le Lis Blanc, Bobô, Ralph Rauren, Moschino e Guess.

Lá fora, algum cheiro de charuto. Lá dentro, taças de cristal brindavam champanhe e outros copos, whisky.

Começamos a dançar. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana. Rick tinha curtido a foto que postei na praia no Facebook. Uma foto antiga! Do tipo: “eu estava te stalkeando na madrugada”. O estagiário cabeludo do Carlão cismou de vir dançar do meu lado. Ai, moleque! Você é muito novinho pra mim. Eu tou esperando o Rick aparecer. O Rick, entendeu? Mari, Nina, Tati entenderam quando eu dei aquela coçada na cabeça. No caminho para o banheiro, encontramos o Rick.

– Oi, sumida. Vi sua foto no Facebook.

– Sério? Que foto?

– Uma que você tá na praia. Em Sentosa Beach.

– Ah! – Nem reparei. Ri, balançando os cabelos.

Começou a tocar Shape of You. Era a minha vez de dar um show.

– Vamos até a pista dançar? – Convidei.

– Claro. Deixa só eu te apresentar. Ah! Tá aqui. Ivy, essa é a Marcela, minha namorada.

– Ah, prazer, Marcela… – falei completamente desconcertada. Eu… Hã. Tava indo até o banheiro com as meninas e já vou encontrar vocês.

Parei no bar.

– Garçom, você pode me arranjar um guardanapo e uma caneta, por favor?

“Ivy e Rick. 18 de Novembro de 2017. Sábado. Sapino – F@deu!!!”

(Ivy Cassa)

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Moço, tira uma foto de mim?

Uma das muitas saudades que sinto do Pedro é a da época em que ele foi um fotógrafo namorado apaixonado por mim.

Os apaixonados, por si sós, veem o objeto amado como algo mais bonito do que efetivamente é. Afinal, se a beleza está nos olhos de quem vê, se para quem ama o feio, bonito lhe parece, nada como ter alguém que lhe olha com aquelas famigeradas lentes cor de rosa da paixão e que tenha um mínimo de bom senso ao manejar as lentes de uma boa máquina fotográfica pra lhe fazer sentir uma celebridade, mesmo que você não tenha sequer cara ou corpo pra isso.

O bom fotógrafo extrai o que temos de melhor: um olhar perdido, um músculo bem desenhado escondido, um lábio entreaberto que tinha a intenção de dizer qualquer coisa. Fotografia tem nuances de poesia. Vai ver, era esse um dos elos entre Pedro e eu: cada um com a sua arte.

Mas, depois de alguns clicks feitos por ele, como aquela foto em que estou debruçada em um Fiat antigo cor de rosa em Buenos Aires, pouca coisa me encanta.

Umas das pouquíssimas coisas que me desagradam em viajar sozinha é ter de depender dos outros pra ter recordações com paisagens. A maioria das pessoas não tem jeito, noção, paciência ou bom gosto mesmo. Tenho um pau de selfie que não me satisfaz e, porque já passei dos 30 há 5 anos, tomo alguma cautela com as selfies sem o pau. Além disso, acho uma baita sacanagem com a minha coleção de vestidos e de sapatos desprestigiá-los nas fotos.

– Moço, tira uma foto de mim?

– Vê se ficou bom.

– Ah, ficou ótimo. Só ficou faltando a paisagem… Dá pra tirar uma segunda, assim com o título “eu E a paisagem”?

– Vê agora.

– Muito obrigada, perfeito! – o jeito é mentir deslavadamente e colecionar fotos mal batidas. Nem que seja pra escrever uma crônica sobre elas no futuro.

Houve tempo em que apostei na “técnica do oriental”, porque diz a lenda que são os melhores fotógrafos – ainda mais se estiverem munidos daqueles equipamentos com lentes superpoderosas.

– Moço, tira uma foto de mim? Tipo: “corpo inteiro, paisagem, pés…”, sabe?

Balela… Os japoneses que cruzam o meu caminho não são bons fotógrafos como os outros. Eu aposto que eles só andam “armados” com canhões pendurados no pescoço por uma questão de status.

Depois de tantas fotos mal enquadradas, desenvolvi uma teoria de que, talvez, o problema, esteja com a minha altura. Ninguém consegue colocar 1,75m em uma única foto. Raramente há pés. Com sorte, há joelhos. Às vezes, falta a tampa da cabeça. Quando há corpo, não há paisagem. Sim, a culpa é minha. A gente precisa aprender a assumir.

Mas o problema das fotos não se restringe às viagens desacompanhada. Viajar com a mãe também lhe coloca em maus lençóis. Digo, em más lentes. Ainda mais se a sua mãe for da geração das fotos das “máquinas de slides”.

Confesso que não tinha me dado tanto conta disso até casar. Acho que eu não tinha esse senso crítico que tenho hoje. De repente, pode ser que tenha ficado mais chata depois de ter conhecido o Pedro. Ou então porque as fotos melhoraram sensivelmente de qualidade nos últimos tempos, em função do desenvolvimento da tecnologia. Ou porque, depois de uns tempos sem viajar com a minha mãe, eu tinha esquecido das suas habilidades como fotógrafa.

A primeira viagem que fizemos juntas nessa era da modernidade foi a Paris. Sentei à beira do Sena, cruzei as pernas na frente do corpo e minha mãe bateu a foto apressada e aos berros. Saí pela metade. O rio apareceu de relance.

– Que houve?

– Você ia cair no Sena e morrer afogada!

– Mas o muro tem mais de um metro de largura! Ainda que caia dele, tem uma calçada lá embaixo. Nem morro, sequer afogada. Quanto muito, um traumatismo craniano. – zombei.

Mas a mesma quantidade de paixão que tenho por tirar fotos nas alturas minha mãe tem de pânico por fotos nesses lugares. No Cerro San Cristóbal, em Santiago, a cena se repetiu.

– Você vai cair do morro!!

Apenas saíram minhas botas e um pedaço da bolsa. Ela queria me segurar, não bater a foto.

Só que o problema nao se restringia às alturas. Nossas viagens passaram a ter perrengues a cada momento de registro fotográfico.

– Mãe, não pode por o dedo no flash.

– Mãe! Não pode por o dedo na lente.

– Mãe, você filmou, ao invés de fotografar.

– Mãe, inverte a câmera.

– Mãe! No botão branco. Não, mãe!! O de baixo não! Esse desliga o celular.

– Mãe, tá contra a luz!

– Mãe, tira 200 se for preciso, que isso não tem filme! Uma há de ficar boa!

– Mãe… Deixa pra lá. Nessas férias decidi que vai ficar tudo na memória…

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão: não era culpa da minha mãe. Ela se esforçava. Era culpa das mães em geral. Constatei isso quando testemunhamos uma briga num jantar de cruzeiro. Mãe e filha que dividiam a mesa do navio conosco se desentenderam por causa de um camelo.

A filha mostrou a foto e fui solidária a ela. A moca era dançarina do ventre e blogueira, e a foto em cima do camelídeo era peça chave para conseguir algumas centenas de likes no seu Instagram. Tudo teria sido um sucesso, não fosse a mãe ter ignorado a cabeça e o traseiro do bicho.

– Mas dá pra entender que é um camelo! – Se defendia a mãe. Veja as corcovas. Qualquer um, com um tantinho de imaginação, percebe.

Minha mãe concordava mentalmente, lembrando daquela foto que ela tinha tirado de mim na parede de Medina na mesma tarde, em que eu me chateei porque não dava pra compreender que era uma Medina. Para as mães, tudo é uma questão de imaginação.

Quando visitamos o Grand Canyon, tive uma das minhas maiores frustrações fotográficas. Nem uma só foto saltando. Dezenas de poses desperdiçadas. Um calor de fritar as carnes sentada numa pedra, sorrindo, 5 minutos posando e nenhuma foto batida.

– Mãe, você só pode estar de sacanagem comigo! Nós em uma das 7 maravilhas da natureza e nenhuma foto?? Que se passou?

– É que fiquei tensa.

– Tensa? Tensa tou eu com as nádegas em brasa nesse calor de quase 50 graus e nem uma foto do Canyon, mãe!!

– Fiquei com medo de você cair no precipício.

O medo procedia. Passou-me vagamente a vontade de me jogar ou jogar o celular no precipício depois daquilo tudo.

O arranca rabo foi tamanho que, no dia seguinte, ficamos uma pra cada lado na piscina do hotel. Eu estava tomando sol quando um rapaz se aproximou.

– Posso sentar?

– Pode.

Perguntou o que eu estava fazendo. Contei das férias e do passeio no Canyon.

– Puxa! Deixa eu ver as suas fotos.

Expliquei, meio sem jeito, que não havia muito pra mostrar.

Ele percebeu minha frustração.

– Quer que eu tire umas fotos de você?

Não sou muito fã de pedir pra desconhecidos tirarem fotos minhas de biquíni, mas lembrei que não tinha uma única lembrança na piscina do Bellaggio, e acabei aceitando. Ele até que mandava bem: corpo, pés, biquíni, cabeça, chapéu, piscina. Ufa!

– Obrigada. Vou continuar aqui tomando meu sol. Prazer te conhecer.

Passaram uns minutos, eu estava tomando sol de costas, biquíni desamarrado na parte de cima, fones nos ouvidos, quando uma mão veio no meu ombro.

– Oi. Eu tava aqui te olhando tomar sol… não quer que eu tire umas fotos suas por outro “ângulo“ agora?

Me recompus rapidinho.

– Não, obrigada. Já chega de fotos. E você também pode ir pra lá. Isso já está queimando seu filme.

E tranquei a cara. Era cada uma!

Peguei minhas coisas e fui para o outro lado da piscina, onde minha mãe estava meio murcha. Brigas com mães nunca passam de meros incidentes.

– Ô mãe… eu tava ali pensando. Vamos procurar um curso de fotografia pra mães quando chegar ao Brasil?

(Ivy Cassa)

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