O baile de máscaras e a autoficção

Vestido verde escuro longo com uma fenda na perna esquerda, um corpete dourado que revelava um decote nem tão discreto. Um par de sandálias douradas combinando com a bolsa e os brincos de bolinhas que faziam conjunto com a pulseira. E “aquele anel” de esmeralda. Mas, o que completava o look não era o tal anel – embora ele caísse realmente bem naquele contexto. O grand finale ficava por conta de uma máscara. Dourada, com uma delicada borboleta na lateral direita e uma fita preta grossa que a amarrava em um arranjo meio preso dos cabelos lisos que foram cacheados só para aquela noite e tinham algum desejo de desmaiar a qualquer momento.

Não era todo dia que aparecia programa assim: um baile de máscaras! Na verdade, eu tinha esperado 35 anos da minha vida para ser convidada para um. Aquele seria O grande dia. Só podia ser um sinal!

– Nina, tem certeza que meus cílios não vão desgrudar no meio da festa?

– Tenho!

– Conferi mais uma vez no espelho.

– Mas dá pra você levar a colinha na sua bolsa? É que esse aqui ao lado da borboleta cismou de ficar raspando nela. E na minha não cabe mais nada.

– Dá aqui. Agora vamos. Já estamos atrasadas.

– Nãaaao! Primeiro vamos tirar umas fotos.

– Ivy!! A gente prometeu que chegava pro coquetel! Deve estar cheio de príncipes mascarados perdidos e nós ainda aqui.

– Tá bom!

– Fiz só uma selfie meio sem jeito no corredor e já saí correndo atrás dela até o elevador.

Chegando lá, fomos recebidas de pronto por um garçom também mascarado servindo champanhe. Isso é o que chamo de uma boa recepção.

Adentrando o salão, a sensação era de que tinha mergulhado em um baile do século XVII. Eu estava em Versailles, na Galeria dos Espelhos. Minha vontade era de rodopiar e dançar uma valsa vienense. Tá, talvez não dançassem valsas vienenses na França. Tá, eu estava no Brasil e estava tocando uma música da Anitta. Mas… com um tanto de imaginação e algumas taças de champanhe, eu podia ir onde quisesse. Agora, era só encontrar onde estava o meu príncipe perdido.

Felizmente, os anos tinham passado e eles não usavam mais aquelas perucas da moda lançadas por Luís XIV. Por outro lado, infelizmente, eles não usavam mais saltos Luís XV, o que dificultava um pouco a vida de quem, com aquelas sandálias, já ultrapassava o limite do 1,80m. Mas, nem tudo eram más notícias: além do embelezador natural que alguns homens ganham depois de 2 taças de champanhe, eles estavam mascarados, o que lhes dava muitos pontos de vantagem.

– Ivy, mira nos que têm dentes (ou a maioria deles) e não têm aliança. A noite será um sucesso! Cheers! – profetizou Nina.

Ela logo se jogou na pista. Eu, mais recatada, sentei perto do bar e fiquei observando o movimento.

De repente, uma mão veio pelo meu ombro junto com uma voz:

– Me daria a honra dessa contradança?

– Que susto! – Saltei da cadeira. A gente se conhece? – perguntei para aquela imitação curiosa do Zorro.

Ele não era Antonio Banderas. O sorriso passava longe mas, pelo menos, tinha os dentes incisivos, molares e pré molares (que foram os que consegui enxergar), e ainda qualquer coisa de familiar.

– Vem. – E me puxou pela mão.

Aquilo não era exatamente música pra se dançar a dois, embora fosse até adequada para o tema da festa. Era uma da Pitty e dizia coisas como “Tira a máscara que cobre o seu rosto Se mostre e eu descubro se gosto Do seu verdadeiro jeito de ser”.

Ele não era propriamente um pé de valsa, mas eu já tinha dançado com piores.

– Como anda a vida? Notei que não tem escrito no Blog. Correria de fim de ano?

– Você é meu leitor?

– Claro, Ivy.

Fiquei com uma pontinha de vaidade. – Puxa! Achava que nem era famosa e já tenho um leitor que me reconhece numa festa. E isso eu estando mascarada!

– Como é seu nome?

– Grumercindo.

– Gumercindo?

– Não, Grumercindo mesmo. Mas você também pode me chamar de Agente AK 5078. Ou, simplesmente, de Gru. Huhuhu!

– Gru??? – Puxei a máscara do Zorro. O que você está fazendo aqui?

– Averiguações… e deu uma piscadinha. Você está sob investigação, lembra?

– Eu ainda não entendi o que está sob investigação. Nem do que sendo acusada. E acho que não preciso dançar com você por isso. – Cruzei os braços e saí da pista pisando duro, em forma de protesto.

– Aaaaah, Ivy! Não seja assim. Vem cá. Precisamos conversar sobre o seu livro.

– Não tá satisfeito ainda? Já roubou quase metade dele! Deve ter tirado as suas conclusões.

– O problema é bem esse. Vamos lá no bar um pouquinho?

– E eu tenho escolha? É uma condução coercitiva?

– É um convite.

Chegando lá, Gru tirou do bolso algumas folhas amassadas do manuscrito do meu livro.

– Estou muito confuso lendo isso tudo aqui. Não entendi até agora se isso é realidade ou ficção.

– É autoficção.

– Fiquei na mesma. – Disse, com um ar de dúvida.

– É a minha história, com pitadas de ficção.

– Mas tudo que você conta aqui aconteceu?

– Quem sabe?

– Você sabe.

– Mas não importa ao leitor. Não é uma biografia minha.

– E por que você não escreve uma biografia? Tem algo a esconder? Páginas que jogou pra baixo do tapete?

– Porque não me interessava esse gênero. Eu queria trabalhar de outra maneira.

– E por que então não escreve ficção então? Você me deixa confuso!

– Porque eu queria colocar elementos da minha vida e, por outro lado, queria fazer um jogo com o meu leitor. E, para isso, uso os meus personagens, que trazem pontos de vista diferentes ou sustentam as minhas opiniões para convencer o leitor da minha.

– Você está manipulando tudo! É fraude!!

– Gru! Eu não preciso ter um compromisso com a verdade. Há pedaços de histórias reais com recursos de linguagem que as tornam fictícias.

– É tudo mentira!!

– Não!! Há uma deformação de fatos por meio de artifícios. Mas o pano de fundo é verdade. Eu não preciso escancarar a minha vida. E, às vezes, a realidade, quando distorcida pela ficção, fica mais interessante do ponto de vista literário.

– E no seu dia a dia você também faz autoficção? Digo… se estamos em uma roda e você conta uma história pra essa Tati, por exemplo… a história é verdadeira?

– Sim! Eu sou eu na vida real e autora quando escrevo.

– E a Tati, o Carlão, essas pessoas com quem você conversa, existem?

– Quem sabe?

– Basta!!

– Essa fala é do Carlão. – risos.

– Você parece aquelas crianças que conversam com amigos imaginários.

– E que mal há nisso?

– Só falta dizer que eu também sou produto da sua imaginação.

– Será?

– Gru se beliscou. Eu acho que eu existo.

– Meus leitores também já acham. Assim como acham que meu porteiro existe, o síndico, os shampoos Cabelícia… Gru… – me aproximei dele e passei a mão no seu rosto. Tirei seu chapéu. Tá vendo essa máscara? Quando você coloca, você é o Zorro. Imagine que ela é a sua autoficção. Quando você tira – desamarrei a fita -, você volta a ser o Gru. O Zorro tem um pouco do Gru. Eu consigo ver o Gru pela máscara. Mas, hoje, aqui nessa festa, com chapéu e máscara, você pode ser o Zorro. É como no meu Blog. É como no meu livro.

– Você me embaralhou ainda mais, Ivy. Você definitivamente não bate muito bem, como diz a Dona Interpol.

– Gru, o pacto que tenho com meu leitor não é o da verdade, é o do prazer proporcionado pela leitura. O leitor não terá condições, em princípio, de fazer uma investigação profunda para saber se tudo que está escrito no meu Blog ou no meu livro aconteceu ou não

– Não?

– Não.

– Então aquelas coisas que eu andei lendo…

– Gru, eu vou ler um trecho de um poema bem conhecido pra ver se você entende melhor do que estou falando. Abri a bolsinha, peguei o celular e procurei no Google:

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente”

– Percebe, Gru? Gru??? Gru??????

Mas ele já tinha sumido. Certamente, pegou suas botas super saltitantes e escapou quando viu a Nina chegando no balcão, pra não ter sua identidade revelada. Outros, dirão ainda que Gru jamais foi àquele baile e que tudo não passou de delírio da autora.

– Ivy?? Tava aqui sozinha no celular em plena festa? – perguntou a Nina.

– Tava lendo um poema do Pessoa.

– Isso não é lugar pra poetar! Vamos pra pista. Vai arrasar com esse vestido! Tá cheio de bons partidos.

Aceitei. Nina me puxou pela mão.

– O que é isso? Tá segurando uma máscara do Zorro? De quem é?

– Ah… um amigo esqueceu enquanto conversava comigo…

O ciclo da vida

Era sábado de manhã. Minha mãe entrou no quarto:

– Vivi, já são 11h. Precisa levantar e comer alguma coisinha.

– Ai, mãe… só mais 5 minutinhos.

– Levanta. Tem hora no salão de beleza daqui a pouco, não vai sair de estômago vazio.

Bem a contragosto, saí da cama. Tinha figo cortado e bisnaguinha com requeijão na cozinha. O suco de laranja ela espremeu na hora.

– Precisa beber?

– Precisa. Tem vitamina C.

Nunca fui muito chegada em café da manhã.

Coloquei meu vestido florido comprido que escondia minhas pernas, a camisetinha branca por baixo, que disfarçava que eu mal tinha peitos, e os keds brancos, que encobertavam meus pés.

Chegando no salão de beleza, escolhi o esmalte: Misturinha. Esmalte sempre tinha de ser branco.

– Vai sair hoje? – perguntou a dona do salão.

– Vou à matinê do Moinho Santo Antonio.

– Matinê com esse tamanho?

– É que só tenho 15…

Fiquei pensando: “E precisava ter crescido tanto? Veja a Dani. 1,50m. Deve ter, no mínimo, 25 cm a menos de pernas, de braços, de tudo. Claro que, condensando as coisas, ficou mais fácil ter coxas, ter bunda, ter peito. E que eu faço com os pés? 37! Minha mãe calça 35. Meu pai, 42. Se eu, com 15, já estou por aqui, imagina quando chegar aos 30? Já vou estar calçando uns 50, no mínimo!”

Voltei pra casa. No caminho, passei na banca e comprei a Todateen. Na capa tinha o Rodrigo Santoro. Cabeludo. Eu estava na fase dos cabeludos.

Liguei pra Gabi, minha melhor amiga de todo o mundo pra sempre.

– Que horas sua mãe passa aqui?

– Minha mãe disse que tá muito cansada e não vai poder levar. Não dá pro seu pai levar?

Ferrou. Era dia de jogo do Palmeiras. Nem ia tentar.

– Dani, será que o seu pai podia dar a carona?

Santo pai da Gabi! Tava tudo resolvido. Dani, Gabi e eu. As melhores amigas do mundo. A Dani e a Gabi eram as duas únicas pessoas que eu já tinha deixado ler o meu diário. Que sabiam exatamente com quantos meninos eu já tinha ficado e o ranking de cada um. E vice versa. Aquele tipo de amizade que a gente sabe que nunca vai acabar na vida.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Abri minha Toda Teen e fiz um teste: “Ele está a fim de você ou é só enrolação?”

Em uma escala de 0 a 10, o Gus marcou 5 pontos: “Você tem grandes chances, mas ele ainda precisa ser mais decidido nas suas atitudes.”

Liguei pra Gabi. Liguei pra Dani.

– Acho que o Gus tá a fim de mim!

Li meu horóscopo. “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Liguei de novo pra Dani e pra Gabi.

– A única chance do Gus não ficar comigo hoje é não ter chegado o momento ainda.

A Gabi fez outro teste. “Ivy e Gus, 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.”

– O Sapino não falha! Deu paixão! É hoje!!

Fui para o quarto, liguei meu walkman e coloquei a fita da Shakira: “Estoy Aqui”. Fiquei tentando lembrar os passos do clip que tinha visto na MTV, repetindo na frente do espelho. Bati o cotovelo direito no armário. Dizem que os adolescentes se batem muito nos móveis, vai ver era isso. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu ia conquistar o Gus.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Calça jeans. Enquanto eu não criasse pernas musculosas, saias nem pensar! A calça devia ser de marca, por que as roupas precisam ter selo de qualidade. Onde não se vê uma bunda, tem de se enxergar uma etiqueta: Ellus. Uma blusa preta de renda. Preto, sempre, porque é sexy. Bota, porque encurta as pernas e encolhe os pés. Mas sem salto, pra eu não ficar ainda maior que os meninos, nem muito maior que o Gus. Perfume: Thaty. No bolso, ballas Halls pretas.

Às 17h a mãe da Dani chegou. Fomos buscar a Gabi.

Chegamos ao Moinho e estava aquela muvuca na porta.

Um desfile de Handbooks, Sideplays, OPs, Fioruccis, 775, Big Johnson´s, Nautica, Gap. Lá dentro, o cheiro de cigarro tomava conta.

Começamos a dançar. Encontramos o Fer, o Neto, o Dani e o Gus. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana: Gus tinha me dado um bombom – e não era qualquer bombom. Era um Serenata de Amor. Eu grudei o papel na minha agenda da Pakalolo bem no dia: 13 de maio. E ele escreveu embaixo: Amor com amor se paga. O Neto cismou de vir dançar do meu lado. Ai, Neto! Você não é o Gus!! Você vai atrapalhar a minha noite. Fiz sinal pra Gabi e pra Dani – quando a gente coçava a cabeça, era hora de ir até o banheiro pra fugir de qualquer coisa. Mas a Dani não estava lá. Só a Gabi foi comigo.

– Que saco, o Neto não me largava!

Nisso, começou a tocar Shakira.

Gritamos histéricas e saímos correndo do banheiro. Era a minha hora de brilhar.

Quando chegamos ao grupo, o Gus também não estava lá. Ué. Cadê o Gus? E cadê a Dani, que continuava sumida? Foi quando o Fer colocou a língua pra fora, pra um lado e pro outro, e fez uma mímica, apontando pra parede, onde o Gus estava praticamente engolindo a Dani.

Imediatamente, comecei a chorar. A Gabi, minha melhor amiga de verdade pra toda a vida, quis bater na Dani, mas eu não deixei. O Fer segurou. O Neto insistiu pra me beijar, já que eu não ia beijar o Gus. Eu não quis. O Neto quis então beijar a Gabi. A Gabi também não quis. O Neto acabou ficando com uma menina desconhecida e a Gabi ficou com o Fer.

Comprei uma ficha e fui até o orelhão. Liguei pra minha mãe.

– Já acabou o jogo do Palmeiras? Dá pra vocês virem me buscar? É que não tou passando muito bem.

“Dani e Gus. 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.” Deu amor. Amor era mais que paixão. Mas a Dani era uma vaca mesmo assim.

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Era sábado de manhã. O despertador tocou. Eram 11h. Eu precisava ir à manicure, que estava marcada pras 11h mesmo. Saí correndo e sem café da manhã, já que não tinha nada na geladeira, além de vinho branco e champanhe.

Coloquei a primeira roupa que apareceu pela frente. Levei meu próprio esmalte, o vermelho de sempre.

– Qual é a festa de hoje? perguntou a dona do salão.

– Aniversário de um amigo.

– Não sei como não cansa de tanta festa.

– Tou exausta. Queria ter o pique dos meus 15 de novo. Só nessa semana não almocei 2 vezes e virei uma noite em claro.

Do salão, fui combinando sobre a festa com a Nina, a Tati, a Mari e o Carlão no grupo de WhattsApp “Bebedores dançantes”.

– Vamos todos de Uber. Se quiserem fazer esquenta, passem em casa antes.

Tati: – Acha que é hoje que o Rick vem falar com você? – perguntou a Tati.

Eu: – Tava aqui na cabeleireira lendo meu horóscopo: “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Carlão: – E quem acredita nessas bobagens? O cara é um babaca, todo mundo sabe.

Mari: – Se até hoje, depois de 3 festas que ele encontrou com você, ele não fez nada, eu não botaria muita fé.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Entrei no facebook e fiz um teste: “pessoas que podem mudar seu futuro”: E quem saiu? “Rick.” Rick?? Será??

Compartilhei no grupo dos Bebedores dançantes.

Eu: – Acho que o Rick tá a fim de mim.

Fui para o quarto. Abri o Ipad e coloquei o clip do Shape of You. Fiquei repetindo a coreografia na frente do espelho do closet. Bati o cotovelo direito na porta do armário, mesmo não sendo mais adolescente. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu iria seduzir o Rick na pista de dança.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Vestido vermelho curto com um decote. Ah, como 19 anos de musculação tinham facilitado as coisas. Só por precaução, fiz 3 séries de 20 agachamentos antes de sair. Coloquei uma sandália preta tamanho 37 de salto alto, mas não muito alto. O Rick não era um jogador de basquete. Perfume: Coco Mademoiselle Chanel.

Às 22h os bebedores chegaram. Às 23h, o Uber chegou.

Um desfile de Le Lis Blanc, Bobô, Ralph Rauren, Moschino e Guess.

Lá fora, algum cheiro de charuto. Lá dentro, taças de cristal brindavam champanhe e outros copos, whisky.

Começamos a dançar. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana. Rick tinha curtido a foto que postei na praia no Facebook. Uma foto antiga! Do tipo: “eu estava te stalkeando na madrugada”. O estagiário cabeludo do Carlão cismou de vir dançar do meu lado. Ai, moleque! Você é muito novinho pra mim. Eu tou esperando o Rick aparecer. O Rick, entendeu? Mari, Nina, Tati entenderam quando eu dei aquela coçada na cabeça. No caminho para o banheiro, encontramos o Rick.

– Oi, sumida. Vi sua foto no Facebook.

– Sério? Que foto?

– Uma que você tá na praia. Em Sentosa Beach.

– Ah! – Nem reparei. Ri, balançando os cabelos.

Começou a tocar Shape of You. Era a minha vez de dar um show.

– Vamos até a pista dançar? – Convidei.

– Claro. Deixa só eu te apresentar. Ah! Tá aqui. Ivy, essa é a Marcela, minha namorada.

– Ah, prazer, Marcela… – falei completamente desconcertada. Eu… Hã. Tava indo até o banheiro com as meninas e já vou encontrar vocês.

Parei no bar.

– Garçom, você pode me arranjar um guardanapo e uma caneta, por favor?

“Ivy e Rick. 18 de Novembro de 2017. Sábado. Sapino – F@deu!!!”

(Ivy Cassa)

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Moço, tira uma foto de mim?

Uma das muitas saudades que sinto do Pedro é a da época em que ele foi um fotógrafo namorado apaixonado por mim.

Os apaixonados, por si sós, veem o objeto amado como algo mais bonito do que efetivamente é. Afinal, se a beleza está nos olhos de quem vê, se para quem ama o feio, bonito lhe parece, nada como ter alguém que lhe olha com aquelas famigeradas lentes cor de rosa da paixão e que tenha um mínimo de bom senso ao manejar as lentes de uma boa máquina fotográfica pra lhe fazer sentir uma celebridade, mesmo que você não tenha sequer cara ou corpo pra isso.

O bom fotógrafo extrai o que temos de melhor: um olhar perdido, um músculo bem desenhado escondido, um lábio entreaberto que tinha a intenção de dizer qualquer coisa. Fotografia tem nuances de poesia. Vai ver, era esse um dos elos entre Pedro e eu: cada um com a sua arte.

Mas, depois de alguns clicks feitos por ele, como aquela foto em que estou debruçada em um Fiat antigo cor de rosa em Buenos Aires, pouca coisa me encanta.

Umas das pouquíssimas coisas que me desagradam em viajar sozinha é ter de depender dos outros pra ter recordações com paisagens. A maioria das pessoas não tem jeito, noção, paciência ou bom gosto mesmo. Tenho um pau de selfie que não me satisfaz e, porque já passei dos 30 há 5 anos, tomo alguma cautela com as selfies sem o pau. Além disso, acho uma baita sacanagem com a minha coleção de vestidos e de sapatos desprestigiá-los nas fotos.

– Moço, tira uma foto de mim?

– Vê se ficou bom.

– Ah, ficou ótimo. Só ficou faltando a paisagem… Dá pra tirar uma segunda, assim com o título “eu E a paisagem”?

– Vê agora.

– Muito obrigada, perfeito! – o jeito é mentir deslavadamente e colecionar fotos mal batidas. Nem que seja pra escrever uma crônica sobre elas no futuro.

Houve tempo em que apostei na “técnica do oriental”, porque diz a lenda que são os melhores fotógrafos – ainda mais se estiverem munidos daqueles equipamentos com lentes superpoderosas.

– Moço, tira uma foto de mim? Tipo: “corpo inteiro, paisagem, pés…”, sabe?

Balela… Os japoneses que cruzam o meu caminho não são bons fotógrafos como os outros. Eu aposto que eles só andam “armados” com canhões pendurados no pescoço por uma questão de status.

Depois de tantas fotos mal enquadradas, desenvolvi uma teoria de que, talvez, o problema, esteja com a minha altura. Ninguém consegue colocar 1,75m em uma única foto. Raramente há pés. Com sorte, há joelhos. Às vezes, falta a tampa da cabeça. Quando há corpo, não há paisagem. Sim, a culpa é minha. A gente precisa aprender a assumir.

Mas o problema das fotos não se restringe às viagens desacompanhada. Viajar com a mãe também lhe coloca em maus lençóis. Digo, em más lentes. Ainda mais se a sua mãe for da geração das fotos das “máquinas de slides”.

Confesso que não tinha me dado tanto conta disso até casar. Acho que eu não tinha esse senso crítico que tenho hoje. De repente, pode ser que tenha ficado mais chata depois de ter conhecido o Pedro. Ou então porque as fotos melhoraram sensivelmente de qualidade nos últimos tempos, em função do desenvolvimento da tecnologia. Ou porque, depois de uns tempos sem viajar com a minha mãe, eu tinha esquecido das suas habilidades como fotógrafa.

A primeira viagem que fizemos juntas nessa era da modernidade foi a Paris. Sentei à beira do Sena, cruzei as pernas na frente do corpo e minha mãe bateu a foto apressada e aos berros. Saí pela metade. O rio apareceu de relance.

– Que houve?

– Você ia cair no Sena e morrer afogada!

– Mas o muro tem mais de um metro de largura! Ainda que caia dele, tem uma calçada lá embaixo. Nem morro, sequer afogada. Quanto muito, um traumatismo craniano. – zombei.

Mas a mesma quantidade de paixão que tenho por tirar fotos nas alturas minha mãe tem de pânico por fotos nesses lugares. No Cerro San Cristóbal, em Santiago, a cena se repetiu.

– Você vai cair do morro!!

Apenas saíram minhas botas e um pedaço da bolsa. Ela queria me segurar, não bater a foto.

Só que o problema nao se restringia às alturas. Nossas viagens passaram a ter perrengues a cada momento de registro fotográfico.

– Mãe, não pode por o dedo no flash.

– Mãe! Não pode por o dedo na lente.

– Mãe, você filmou, ao invés de fotografar.

– Mãe, inverte a câmera.

– Mãe! No botão branco. Não, mãe!! O de baixo não! Esse desliga o celular.

– Mãe, tá contra a luz!

– Mãe, tira 200 se for preciso, que isso não tem filme! Uma há de ficar boa!

– Mãe… Deixa pra lá. Nessas férias decidi que vai ficar tudo na memória…

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão: não era culpa da minha mãe. Ela se esforçava. Era culpa das mães em geral. Constatei isso quando testemunhamos uma briga num jantar de cruzeiro. Mãe e filha que dividiam a mesa do navio conosco se desentenderam por causa de um camelo.

A filha mostrou a foto e fui solidária a ela. A moca era dançarina do ventre e blogueira, e a foto em cima do camelídeo era peça chave para conseguir algumas centenas de likes no seu Instagram. Tudo teria sido um sucesso, não fosse a mãe ter ignorado a cabeça e o traseiro do bicho.

– Mas dá pra entender que é um camelo! – Se defendia a mãe. Veja as corcovas. Qualquer um, com um tantinho de imaginação, percebe.

Minha mãe concordava mentalmente, lembrando daquela foto que ela tinha tirado de mim na parede de Medina na mesma tarde, em que eu me chateei porque não dava pra compreender que era uma Medina. Para as mães, tudo é uma questão de imaginação.

Quando visitamos o Grand Canyon, tive uma das minhas maiores frustrações fotográficas. Nem uma só foto saltando. Dezenas de poses desperdiçadas. Um calor de fritar as carnes sentada numa pedra, sorrindo, 5 minutos posando e nenhuma foto batida.

– Mãe, você só pode estar de sacanagem comigo! Nós em uma das 7 maravilhas da natureza e nenhuma foto?? Que se passou?

– É que fiquei tensa.

– Tensa? Tensa tou eu com as nádegas em brasa nesse calor de quase 50 graus e nem uma foto do Canyon, mãe!!

– Fiquei com medo de você cair no precipício.

O medo procedia. Passou-me vagamente a vontade de me jogar ou jogar o celular no precipício depois daquilo tudo.

O arranca rabo foi tamanho que, no dia seguinte, ficamos uma pra cada lado na piscina do hotel. Eu estava tomando sol quando um rapaz se aproximou.

– Posso sentar?

– Pode.

Perguntou o que eu estava fazendo. Contei das férias e do passeio no Canyon.

– Puxa! Deixa eu ver as suas fotos.

Expliquei, meio sem jeito, que não havia muito pra mostrar.

Ele percebeu minha frustração.

– Quer que eu tire umas fotos de você?

Não sou muito fã de pedir pra desconhecidos tirarem fotos minhas de biquíni, mas lembrei que não tinha uma única lembrança na piscina do Bellaggio, e acabei aceitando. Ele até que mandava bem: corpo, pés, biquíni, cabeça, chapéu, piscina. Ufa!

– Obrigada. Vou continuar aqui tomando meu sol. Prazer te conhecer.

Passaram uns minutos, eu estava tomando sol de costas, biquíni desamarrado na parte de cima, fones nos ouvidos, quando uma mão veio no meu ombro.

– Oi. Eu tava aqui te olhando tomar sol… não quer que eu tire umas fotos suas por outro “ângulo“ agora?

Me recompus rapidinho.

– Não, obrigada. Já chega de fotos. E você também pode ir pra lá. Isso já está queimando seu filme.

E tranquei a cara. Era cada uma!

Peguei minhas coisas e fui para o outro lado da piscina, onde minha mãe estava meio murcha. Brigas com mães nunca passam de meros incidentes.

– Ô mãe… eu tava ali pensando. Vamos procurar um curso de fotografia pra mães quando chegar ao Brasil?

(Ivy Cassa)

#portasabertasivycassa #blog #literatura #autoficção #fotografia #maesefotos

Nox – dine in the dark

Foto para o Carlão.

– Que tal?

– Muito bem, menina Ivy! Vai pra onde vestida de Dominatrix esta noite?

– 😡 Não é uma roupa de Dominatrix! Nós já conversamos sobre isso.

– Eu sei. É aquela roupa que você usou no Uruguai. De Dominatrix. Huahuahua!

– Basta! É uma frente única de couro com uma minissaia preta. E sandálias de amarrar. 😊 Tou bem assim?

– Já disse que sim. Onde é a balada de hoje?

– Vou sair pra jantar.

– Onde, com quem? Conta tudo, não vá esperando que eu faça uma entrevista. Não sou menina, nem sou da Revista Quem.

– Vou a um restaurante que chama Nox – Dine in the dark. Jantar no escuro. Digo, complemente no escuro. E sozinha.

– Você está cada dia pior…

– Aff!! Às vezes nem sei por que te conto as coisas!!

– Você precisa sair pra jantar em restaurantes iluminados. Com boa companhia, pra conversar e falar também sobre a comida, a bebida! De onde veio essa ideia de comer no escuro agora?

– Tá pra nascer o dia em que vou ficar esperando companhia pra sair pra jantar! Você me conhece.

– E que graça tem jantar no escuro?

– É uma experiência sensorial! Comer só pelo paladar. Sem qualquer outro sentido pra atrapalhar.

– Tá bom. Se você tá dizendo. 🙄 E vai vestida assim, com esse decote e com esse batom vermelho por quê, se é tudo no escuro? Vão brincar de gato mia no meio do jantar? 🤣🤣🤣

– Desde quando preciso de plateia pra me arrumar? 😡

– Então boa sorte, menina Ivy super independente! Tomara que nenhum pato ou avestruz pule para o seu prato no escuro. Vá que você coma e acabe gostando. 🤣🤣🤣

– Vou te mostrar onde se enfiam patos e avestruzes. Na volta. Que já tou atrasada. 😡

– 😘

Uber.

– Nox – Dine in the dark, please.

Chegando lá, recebi a primeira instrução: deixei a bolsa no armário junto com o relógio.

– Não pode mesmo levar o celular junto? É que meu celular é uma espécie de marca-passo pra mim… e se eu tiver um ataque cardíaco durante o jantar?

A atendente me olhou sem compaixão. Não teve jeito. As opções que eu tinha só diziam respeito a comida e bebida.

– Alguma restrição alimentar?

– Ovolactopescovegetariana…

– Hã?

– Quer dizer. Vegetariana. – corrigi a tempo.

Era melhor pedir uma refeição mais restrita do que arriscar receber no escuro alguma coisa vinda do mar que eu podia não gostar – uma cabeça de peixe, uma enguia, um ouriço… ia ser muito estranho. Pedi também uma sequência de coquetéis. Talvez fosse uma boa ideia beber um tanto pra entrar no clima. Afinal, sóbria, sozinha, comendo no escuro coisas que eu não sabia o que eram era muita informação a ser digerida por uma viúva sozinha numa sexta feira à noite.

Feitas as devidas escolhas, fui apresentada a uma moça com as feições orientais, baixinha, com trajes muçulmanos, chamada Arina. Ela era a minha “guia”.

Arina explicou as próximas regras:

– Primeiro, você pega nos meus ombros e eu te guiarei. Subiremos por uma escada. São 14 degraus, um plano e mais 5 degraus.

– Fácil.

Saímos da luz. Passamos por uma cortina e o breu se formou. Éramos Arina e eu.

– Arina!! Arina!! Já chegamos à escada?

– Agora sim.

– Arina! Ande devagar! Eu não posso te perder.

– Confie em mim.

– Arina! Eu sou muito alta! Tenho 1,75m, + 10 cm do salto alto! Vou bater a cabeça no teto!!!

– Não, o teto está longe. Continue com a mão esquerda no meu ombro e, se quiser, ponha a mão direita na parede.

– Me esfreguei naquele corrimão lembrando daquela única aula de pole dance que fiz.

– Arina! Posso comer aqui na escada?

– Faltam só mais 8 degraus.

– Ai meu Deus! – Me senti subindo a escadaria da Igreja da Penha. Eram 382 degraus. A Arina devia ter se enganado.

Cheguei dura de medo lá em cima.

– Acabou?

– Chegamos. Pode sentar.

Tateei.

– É pra sentar no chão?

– Não, tem uma cadeira.

– Ufa!

Acertei. Não caí. Ela explicou a terceira regra:

– Serão 12 pratos, que virão em 3 etapas. Um prato giratório com 4 cumbucas por vez. Você gira em sentido horário e vai provando. Junto com cada etapa virá um copo de drink.

Colocou minha mão direita sobre os talheres e o guardanapo.

– Eu preciso comer com talheres?? Não posso pegar com as mãos?

– O restaurante não é marroquino. Você se acostuma. Coloca a cumbuca perto da boca e espeta com o garfo ou pega com a colher.

Pensei. Bom, mas ninguém ia reparar se eu comesse com as mãos… tava tudo escuro! Ninguém, fora a Arina, sabia que eu estava ali. Aliás, havia alguém ali? Mas eu ia me esforçar.

– Arina! Arina!

– O que foi?

– Nada, só testando se você vem mesmo.

– Já volto com a comida e a bebida.

Os segundos pareceram minutos, ou foram minutos que se arrastaram por horas. Eu não tinha percepção alguma de tempo. Dali a um tanto, ela chegou com a primeira rodada. Dei um gole no drink pra iniciar. Lembrava um Cosmopolitan. Apalpei a primeira cumbuca e tentei espetar o que estava dentro. Deu certo. Parecia cogumelo. Era bom. Sucesso! Girei a tabuinha. Espetei o conteúdo da segunda. Parecia repolho. Argh! Esse não. Repolho eu detesto. Terceira cumbuca. Eu tava ficando craque. Tinha consistência de um bolinho. De repente, ele rolou pra dentro do decote da minha blusa frente única. O que fazer? Um tanto sem jeito, enfiei a mão no meio dos peitos e catei o bolinho. O que fazer com ele? Se estivesse num restaurante iluminado, àquela altura teria tratado de esconder o bolinho, esconder minha cara das pessoas das mesas ao lado, me desculpar com quem estivesse na mesa. Mas ninguém me via. Ninguém sabia que eu tinha um bolinho no decote! Resolvi comer. Achei pouco polido, mas, quem sabe, no escuro não houvesse dispensa daquela regra de etiqueta? Será que era preciso também limpar os lábios com o guardanapo antes de colocar o copo na boca ou aquela tradição só valia pra restaurantes de luz? Quarta cumbuca: aquilo devia ser alface. Que delícia comer salada sem ter de me preocupar com os resquícios de verdura presos aos dentes. Comi em fartas garfadas e ri pra mim mesma! Como é doce a vida de quem janta no escuro!

E se houvesse algum namorado comigo? Será que ele estaria palitando os dentes com os dedos ali ao lado? Será que estaria cutucando o nariz? Coçando o saco? Afastei o pensamento e virei o resto do drink.

– Arina! Arina? Arinaaa!!!!

– Calma, estou aqui. Cheguei.

– Ufa! Acabei. Estou satisfeita da comida e o drink acabou. Virei o copo e não sai mais nada.

– Já vou trazer o segundo copo e os pratos quentes.

Arina demorou um pouco. Tentei me situar. A porta pra escada estava na frente. Eu acho. Ao meu lado esquerdo devia ter uma parede. Ao lado direito, pelo menos umas 3 mesas, de onde ouvia vozes falando alto em línguas que não conseguia perceber muito bem. Eu estava em Singapura, podia ser inglês, “singlish” ou qualquer coisa parecida.

– Arina! Arina!!

Naqueles primeiros instantes, chamei a Arina mais vezes do que a minha mãe durante as primeiras fases da minha infância inteira.

Ela finalmente chegou!

Dei um gole generoso no drink. Tinha cheiro de amêndoa. Primeira garfada na cumbuca. Era uma coisa que parecia arroz com feijão. Aquilo caiu na minha roupa. Nem tentei limpar, pois não seria capaz de catar os grãos. Dane-se! Não tinha ninguém vendo. Decidi pular aquela cumbuca. Na próxima tinha tipo uma massa, era mais consistente. Não caiu. Depois, uma alcachofra com queijo. Aos poucos, fui pegando prática. Os drinks foram me deixando mais destemida. Eu tinha nascido pra jantar no escuro!

– Arina, Arina!!

– O que foi?

Estendi as mãos pra ela.

– Você é o meu Messias! – disse já com a voz embargada.

Na terceira rodada, terceiro drink, vez da sobremesa. Sorvete de coco, pudim de qualquer coisa, qualquer coisa com café e outra coisa com geleia que respingou na minha saia. Um drink de uma coisa que tinha gosto de ser vermelha.

– Arina, Arina!! Quero ir embora!

– Gostou?

– Sim, mas estou meio farta de comer e beber no escuro. E sozinha! Esse é o tipo de jantar que definitivamente merece ser partilhado!

Agarrei nos ombros da Arina, crente que iríamos sentido parede da frente, onde a minha porta imaginária ficava. Mas Arina me levou para a direita.

– Arina, tem certeza? A porta não está ali?

– Confia em mim!

– Arina! Eu sou muito alta! Tenho 1,75, + 10 cm do salto alto! Vou bater a cabeça no teto!!!

– Hahaha! Eu gosto do jeito que você pronuncia: “Arina”.

– Arina!! Isso não é nada engraçado!! Arina! A gente vai rolar esses 14 degraus da escada! Eu tomei 3 drinks e tenho 10cm de salto!!

– Vamos em frente.

Arina era o Moisés da escada escura. Não caímos. Ela abriu a cortina e fez-se luz!

– Arina, eu te devo a minha vida!!

Dei de cara com um espelho e vi a minha figura. Havia duas nódoas de gordura na minha frente única de couro vermelha, além da geleia escorrida pela saia. Meu batom estava todo borrado e tinha resquícios de alface pelos meus dentes. Felizes as mulheres que saem pra jantar no escuro desacompanhadas!

Fui levada até um sofá onde preenchi um quiz para tentar adivinhar o que tinha comido. Acertei em parte. Não havia repolho nem feijão, sequer café.

– Eu queria mesmo era pegar o meu celular. Meu coração está descompassado. – confessei para a atendente.

Mensagem para o Carlão:

– Promete que assim que eu voltar pra São Paulo a gente sai pra jantar? E não quero nada à luz de velas, tá? Uma coisa assim, tipo consultório de dentista, beeeeem iluminada! Pra gente conversar. Ah, e eu não vou com a roupa do Uruguai / “Dominatrix”… acho que vai demorar até a lavanderia remover as suas manchas.

(Ivy Cassa)

#portasabertasivycassa #blog #literatura #autoficção #singapura #noxdineinthedark #jantarnoescuro

A paranoia dos pseudopersonagens

– “Dotora Ívis”, boa tarde. A gente pode dar uma palavrinha?

– Pois não. – eu chegando de viagem cansada, tudo que não queria era chamadinha na guarita.

– Fiquei sabendo que a senhora criou uma página na internet. Eu não sou de ficar de conversê sobre a vida dos outros, a senhora sabe, mas o pessoal anda aí comentando…

– Comentando o quê?

– Bom. Primeiro, o síndico falou que vai mandar uma notificação pra senhora pintar a porta de entrada igual à de todo mundo, que ele não é “frouxo” não!

– Mas quem disse que era?

– Andam falando. Depois, a dona Gildete do sétimo falou também que vai pegar a senhora qualquer dia lá na garagem porque a senhora insinuou que no apartamento dela tem acontecido coisas estranhas.

– Mas quem é Dona Gildete? Que coisas estranhas? Não tou entendendo nada!

– É que ela traz aqueles bagulhos lá do Paraguai, a senhora sabe…

– Não sei! Nunca soube! Que piração é essa?

– Ela falou que entendeu a “indireta” que a senhora falou que o tal de Gru tinha ido fazer investigação num apartamento aqui no prédio e que é claro que era no dela.

– Aiaiaiaiai! Se ela soubesse o tanto de gente louca que tem aqui! Vai demorar pro Gru chegar até o apartamento dela, aposto!

– Bom, mas não é só isso. O síndico mandou avisar que vai aumentar o condomínio.

– Ah, eu imaginei. Por causa do aumento no consumo de água, né? Tá com vazamento na coluna?

– Não. É que vão contratar seguranças. E colocar câmeras na área externa.

– Ué? Alguma situação anormal na vizinhança?

– Não. É por causa da tal “invasão masculina” que a senhora relatou no outro dia. O indivíduo Gru entrou no seu apartamento pela varanda, já tinha vindo de outro. E tudo isso sem que a portaria visse!

Balancei a cabeça incrédula.

– E tem mais uma coisinha… – falou meio sem jeito. Eu gostei de aparecer na sua página, mas a senhora escreveu meu nome errado. Sabe como é. Vai que com essa coisa de internet a senhora fica famoooosa, esse tal de blog vai pra tv… já pensou? Eu gostaria de ser conhecido pelo meu nome de verdade.

– Olha, eu vou subir, a gente conversa outra hora? Pode ser? É muita informação pra minha cabeça!

– Mas dotora Ívis!!

Fechei a porta do elevador. Ele só podia estar de brincadeira.

Entrei em casa e fui conferir minha caixa de entrada do Blog. Mensagem privada de leitora nova.

“Parabéns pelo seu blog! Estou impressionada com o seu talento”.

“Obrigada pelo carinho, Vanessa! Seja bem vinda!” – respondi.

Valeska está digitando. (…)

“Acho que você deveria explorar mais todo esse potencial. Aceita uma dica?”

“Claro!”

“Você precisava colocar algum elemento “comercial” pra chamar a atenção dos seus leitores.”

“Como assim?”

“Sou representante exclusiva dos produtos “Cabelícia”. Por que a gente não faz uma parceria?”

“Continuo não entendendo.”

“Veja naquele primeiro post: você podia reescrever e dizer: “abri a porta para a Dona Interpol e ela disse: “Uau! Que cabelos reluzentes!” E eu respondi: “É porque eu acabei de usar meu shampoo Cabelícia”.”

“Puxa, Valeska. Ficaria muito legal, mas acho que foge um pouco do escopo do meu trabalho.”

“Bobinha! Eu mando para você uma cesta completa de produtos Cabelícia! Veja no segundo post: “Cheguei ao tal do Tal balançando meus cabelos recém lavados com o shampoo Cabelícia e logo consegui uma mesa”.”

“Valeska, muito obrigada, mas não posso aceitar sua doação. De qualquer vamos manter contato! Bjs”

E saí do Messenger. Tava tudo maluco???

Mensagem de WhatsApp. Karina. “Muito obrigada pela consideração. Carlão tá em todas. Pai Geraldo idem. Eu, até agora, nem um post mereci. É nessas horas que a gente reconhece as amigas. Estou te bloqueando. Portas fechadas pra você.”

Era só o que me faltava!

Fui tomar banho. Era dia de sair pra dançar. Há quanto tempo eu não dançava assim, junto? Anos!! O Marcelo era meu novo leitor e me fez a gentileza do convite pra gente se conhecer.

Enquanto eu escolhia um vestido, chegou mensagem dele.

“Gata, me responde uma coisa:”

“Claro.”

“Se a gente sair hoje, você vai escrever sobre mim no seu Blog?”

“Sei lá! Você acha que eu planejo meus posts? Eles vêm de repente. Eu tou fazendo qualquer coisa e, quando menos espero, Plim! Vem uma inspiração. Outras vezes, tou com a cabeça focada em outra coisa, no trabalho, em algum problema, daí nem a fórceps. Eu não saio com as pessoas pra ter assunto pra postar, nem me coloco de jeito em situações só pra forçar um post. Eles acontecem.”

“É que eu tou achando melhor a gente não sair.”

“Mas por quê?”

“É que eu vou passar a noite preocupado com o que você vai escrever sobre mim. Se eu vou sair bonito na história. Se meu desempenho será bom. Se não vou fazer presepada. Se você não vai me detonar depois. Se seus leitores vão gostar de mim.”

“Tá doido? Eu nem escrevo sobre você, então!! A gente só dança e pronto.”

“Tá vendo? Daí olha a frustração! Saí com a mina do Blog e nem uma notinha! De que adianta?”

“Olha, Marcelo. Vamos deixar pra outra hora. Daí a gente pensa em como “documentar” esse encontro, pode ser?”

“Beleza.”

“Esse mundo tá mesmo de cabeça pra baixo! Vou dormir. Chega de brincar de escritora por hoje.”

No dia seguinte, acordei com o interfone.

– “Dotora Ívis”, bom dia! Tem uma correspondência e uma caixa aqui embaixo pra senhora.

– Tá bom. Já desço pra buscar.

Comecei pela carta. O selo era de Lyon, mas o texto estava em português. Ufa! Menos trabalho pra ler.

“Prezada Ivy Cassa,

Como é de conhecimento, um de nossos agentes está encarregado de realizar averiguações em seu apartamento. Apesar de sua indiscutível semelhança com um conhecido personagem de animação da Universal Pictures, bem como do agente AK 50789 ser também conhecido pela alcunha de Gru, pedimos a gentileza de não confundir os leitores do seu com a imagem daquele personagem. Ele não é pai de Agnes, Margo e Edith, tampouco é servido por seres amarelos milenares. Ao reforçar essa imagem perante seus leitores, a senhora infantiliza o agente e menospreza a complexidade do seu trabalho.

Grata pela compreensão.

Dona Interpol”

Desmontei no tapete. O que mais vinha por aí?

Abri a caixinha e li o bilhete que acompanhava 5 frascos escuros:

“Bom dia, Ivy! Que tal começar assim? “A paranoia dos pseudopersonagens que usam shampoos e condicionadores “Cabelícia””? Beijos, Valeska”.

(Ivy Cassa)

#portasabertas #ivycassa #blog #literatura #crônica #pseudopersonagens

Jet lag

– S’il vous plaît, quelle heure est-il?

– Il est 6 heures du matin, madame.

6h da manhã! Não. Isso é uma grande sacanagem. Saí ontem às 22h40 de Singapura. Voei 13 horas. E ainda o sol não nasceu em Paris!

Olhei desorientada para o painel de voos. O meu só parte daqui a 4h! O que fazer com tanto tempo no aeroporto? Dormir, claro! Mas lembrei que dormi umas tantas horas no voo, anestesiada, morta, desmaiada. Maldita alergia, maldita e bendita fenilefrina. Maldito francês que sentou ao meu lado! Eu tinha acabado de comer uma baguete antes de embarcar (pensei: hoje o Josair não me pega, vou ignorar o jantar!), tomar um antialérgico, colocar meus fones e dormir. Dito e feito. Eu nem vi o avião levantar voo e já tinha adormecido. (Logo eu que sou cheia de rituais pré decolagem!)

Pois não é que algum tempo depois – sei lá quanto, pois os alérgicos sob efeito de anti-histamínicos perdem a noção do tempo quando dormem, eu fui cutucada pelo francês do lado por causa da comida que tinha chegado?

– Não!!! Você tá louco? Eu estou com alergia! Tomei remédio pra não tossir e nem olhar pra cara dessa comida! Eu detesto o Josair! Você não leu o meu Blog? Eu quero dormir!!!

Mas falei tudo em português, ele não entendeu nada, eu repeti em francês, mas meu francês é horrível, então falei pela terceira vez em inglês e… depois de tanta repetição e alguma reflexão, eu já não sabia se xingava ou se agradecia. Ele certamente tinha apreço pela comida do avião, mas eu estava em outro planeta! Como consequência desse episódio, perdi o sono e arranjei um inimigo vizinho de assento.

Peguei aquele folheto de instruções para emergência e resolvi, apenas por precaução, repassar as lições. Afinal, se o avião caísse na água, não era ele quem ia me ajudar a inflar o colete. Nem a localizar o apito. Mas e se caísse na selva e precisássemos localizar alimentos para nossa sobrevivência até que alguém viesse nos resgatar? E ele fosse uma espécie de Survivorman e dominasse todas as técnicas de sobrevivência na selva e, apenas por revanche, me desse uma planta não comestível e envenenada?

Afastei aquele pensamento. Não devia haver selva no caminho entre Singapura e Paris.

Decidi assistir alguma coisa. 3 episódios de Friends! Nada de sono. O francês estava estrebuchado ao meu lado. Eu precisava tomar um remedinho pra dormir. Não ia ter jeito. Tinha muito voo pela frente. Apaguei pela segunda vez. Em Singapura, já passava de 9h. Era hora de despertar! Mas lá fora tava tudo escuro. O francês roncava. Tive uma ligeira vontade de cutucá-lo, mas lembrei que não se deve retribuir o mal com o mal. Recoloquei os fones e aumentei o volume.

Assisti o filme sobre a vida da Elis Regina. Já era hora do café da manhã. Eu ainda não tinha fome. O francês acordou sozinho. Ele deve ser movido a comida de avião! Dessa vez, fingiu que eu nem existia: eu que me virasse com a minha bandeja. Claro. Uma louca ao lado. Mas ele não compreendia os efeitos da fenilefrina.

Andei pelo aeroporto. 4h de espera. Eu tinha os olhos pesados, mas não queria estragar o sono para o próximo voo. Uma longa jornada até o Brasil ainda. E se eu comesse alguma coisinha? Entrei em uma lanchonete e pedi o cardápio. O que escolher? Bom… No Brasil são 3h e pouco da manhã. Podia até ser um jantar mais atrasado. Em Singapura, hora do almoço. Em Paris, hora do petit dejeuner. Fiz a média dos 3 e achei que o correto seria pedir uma salada.

– Não há salada a essa hora, senhora. Não são nem 8 da manhã, me olhou com repúdio o garçom francês.

– Tá, então um pain au chocolat…

Hora do embarque. Mais 11 horas de voo até o Brasil. Uma luta entre o sono e o despertar. Assisti “Le parapluies de Cherbourg”, mas eu gosto mesmo é de Lalaland. Eu sempre assisto Lalaland no avião e choro como se nunca tivesse assistido. O Carlão diz que nada no mundo é mais demorado que Lalaland. É porque ele nunca foi para Singapura. A senhora ao meu lado me dava agonia. Engolia os dedos, bocejava de boca aberta, se esparramava para o meu assento. Tive vontade de lhe dar um cutucão francês. A fenilefrina já não era o bastante para minha alergia. Faltava o xarope. Vinguei-me com uma tosse potente.

Eu era Ulisses de Tróia regressando de uma Odisseia.

Quando, finalmente, cheguei a São Paulo, depois de 30h de viagem, já era quase noite. Minha mãe tinha ido me buscar no aeroporto.

– Vamos jantar uma pizza?

– Só se for um pain au chocolat. Já é hora do café da manhã em Singapura. – contestei com repúdio de quem acaba de chegar a Ítaca depois de passar por mil tormentos.

E ainda tem gente que reclama do horário de verão…

Pode isso, Arnaldo?

– Carlão, acorda!!!

– Ai, menina Ivy! Você me deixa tão farto. Sabe que horas são, não?

– 5h! 😊

– Pra estar com essa carinha me mandando mensagem a essa hora, ou ganhou na loteria e acabou de conferir o bilhete ou… manda a foto!

– Veja com seus olhinhos.

– Muito bem! É quase um bilhete de loteria. E me acordou por causa disso? Não podia esperar até amanhã? Tá indo para o Butão com ele agora? 😡

– Por que Butão?

– Porque é o lugar mais feliz do mundo, não sabia?

– Hum. Não, é que preciso de um parecer seu.

– Lá vem.

– Acredita que ele foi embora de repente?

– Rs. E qual foi a desculpa?

– Que tinha que encontrar o Arnaldo!

– E quem é o Arnaldo?

– E eu sei lá? Encontrar a essa hora da madrugada? Depois de tuuuudo? E outra! Ele mora do outro lado do mundo! Até a gente se ver de novo!

– Ah, menina Ivy. Não fique assim. Os homens não se apegam. Se ele ficasse, ia parecer que vocês já estavam tendo alguma coisa. Que estavam de malas prontas para o Butão. A gente vai embora pra não criar probl… compromisso!

– Mas e o Arnaldo nisso tudo?

– A gente sempre arranja uma desculpa. É a mãe que tem crises de pânico, o estacionamento que vai fechar, a avó que está nas últimas, o pneu do carro que tem um furo lento, o chefe que está esperando um relatório, o prédio que tem toque de recolher…

– Detesto vocês. Um dia mudo de lado do rio!

– Vai dormir e esquece o… como é o nome?

– João.

– Esquece o João. E o Arnaldo também. Amanhã é um novo dia e você está de férias. Conhece outro alguém interessante e nem pensa mais nisso.

– Tá bom. Obrigada pelo parecer. Boa noite, Carlãozinho. Love u. ❤️

– Boa noite.🌙💤😴

Algumas horas mais tarde…

– Bom dia, Carlão!

Ivy encaminhou uma mensagem:

– “Bom dia, Baby! 😍 Desculpe por ontem, mas eu precisava mesmo achar o Arnaldo. Não parei de pensar em você.”

– Muito bem! Mensagem com emoticon. Quer dizer que ele quer mais. – disse Carlão.

– É?

– Sim! Bom dia + emoticon.

– E bom dia + emoticon + Arnaldo?

– Deixa o Arnaldo pra lá.

– Bom, vou ficar na minha. Vou só responder “Bom dia”. E sem emoticon! Pra ele aprender a não me trocar pelo Arnaldo. Onde já se viu! Até porque já estou na praia… E vamos ver como as coisas se desenrolam.

Mas os dias na praia passam de maneira leeeeenta. Em velocidade de estrela do mar. Carregada pra lá e pra cá. Sol de frente. Sol de costas. Espana areia. Entra na água, molha, seca. O celular nem se mexeu. Não tocou. Não vibrou. Nem spam chegou. Liguei e desliguei o Wi-Fi. Devia ser alguma rede pirata. Liguei no 4g. Nada. Reiniciei o aparelho.

– Carlão, me manda mensagem?

– Por que?

– Ah, era só pra testar se meu WhatsApp estava funcionando.

– Ainda tá esperando mensagem do cara? Kkkk.

– Claro que não! Era só pra checar. Vai que algum juiz maluco tenha bloqueado tudo como da outra vez.

– Sossega!

18h, mensagem do João. Uma foto: “Estamos vendo o por do sol.”

Estamos… estamos quem? – pensei.

– Ah, que máximo! Adoro o por do sol. – limitei-me a dizer. Eu detestava o por do sol a partir daquele momento!

Mensagem encaminhada para Carlão.

– Carlão, ele é gay? Ele está com o Arnaldo vendo o por do sol!!! Não comigo! Com o Arnaldo, percebe??

– Menina Ivy, deixa disso. Vai fazer outra coisa. Esse cara deve ser mais um daqueles babacas que você já está acostumada.

– Tem razão. Foco no jantar!

Lá pelas 19h eu estava de volta ao hotel e quase pronta pra sair. Sim. Esquecer. Jantar. Sair. Badalar. Balançar os cabelos. Reluzir. Mas chegou mensagem do João:

– Jantamos hoje?

Tumtumtum. Coração. João. Butão. Agora que eu estava toda toda??

– Ai, João. Já tou quase pronta pra sair. Consegui uma reserva no Palm Beach, na área externa, bem em frente à marina. Quer ir?

– Deixa eu ver aqui no site. Hummm! Parece bom! Guia Michelin!! Moça de bom gosto. 😍

– Vamos então?

– Já confirmo com você. Me dá 5 min.

Reforcei a maquiagem. Abri aquele perfume novo que tinha comprado no freeshop e borrifei algumas gotas estrategicamente pensadas para aquele jantar. Nisso, chegou mensagem do João:

– Ivy, podemos ir a outro lugar?

– Como assim? Não gostou de lá?

– Gostei, mas é que o Arnaldo não come frutos do mar.

– Ah. Então bom jantar pra vocês. – cortei a conversa.

– Carlão! Você tem razão. Ele é um babaca. Tou indo jantar sozinha! #elequepegueoarnaldoe…

– Kkkkkk.

Jantei feito uma rainha. Caminhei pela baía com meus saltos altos, meu vestido tomara que caia preto meio brilhante, o vento contra o rosto puxando os cabelos pra trás junto com os brincos compridos esverdeados… A vida era dos solteiros. Sem vínculos. Sem expectativas. Sem Joãos, sem Arnaldos, sem cobranças. O Butão era ali! Eu era uma pena que tinha nascido para flanar.

Cheguei ao hotel e desmontei na cama. Me esparramei. Cabia uma dúzia de Ívys ali. E era tudo só pra mim! Coloquei a camisola mais sedosa. Porque eu merecia! Aquela sim seria a minha noite inesquecível da viagem.

Embarquei no meu primeiro sonho quando despertei com o bip do celular. Mensagem de WhatsApp. Carlão? Não. João. Mas já passava da 1h!

– Hey, Baby!! 😍 Você tá brava comigo?

– Não, João. Nem teria por quê. A gente não tem nada. O que é uma noite juntos, não é mesmo?

– Quero muito te encontrar. Estou no bar mais bonito da cidade. Só falta você pra ficar perfeito.

– João… eu estava dormindo.

– Vem. Por favor. Olha o que eu acabei de pedir:

E mandou uma foto dela. A minha viúva preferida. A viúva Clicquot!

– Vem logo antes que esquente.

Fiquei olhando meio incrédula para o telefone. O João era louco, não? Mas lembrei daquela outra noite… De cada detalhe. Revi a foto… era tudo um grande mal entendido?

– Carlão…

– Basta! O que foi agora?

– Vamos imaginar assim que o Arnaldo e o João são tipo amigos de infância.

– Hum.

– Você também não ia largar o Arnaldo numa viagem, não é?

– Menina Ivy. Corre que a champanhe tá derretendo. E minha paciência tá chegando no limite com o Arnaldo, o João, você e essa turma toda. Coloca uma roupa bonita e sai!

Peguei “aquele” vestido verde esmeralda. As sandálias de salto agulha mais finos e reluzentes. Refiz a maquiagem. E, em tempo record, cheguei lá: ao bar mais bonito da cidade.

Entrei afobada, estava escuro. Mensagem pra ele:

– Kd vc?

– Aqui no fundo.

Cheguei à mesa e lá estavam eles: João. A viuva Clicquot, meio suada, mas mas quase preservada.

– Ivy, este é o Arnaldo!

Não. Não, não e não!!

– Boa noite. Arnaldo, a gente pode dar um palavrinha? – pedi, antes de qualquer coisa.

– Claro.

– Manja de futebol?

– Sim.

– Arnaldo, se a gente estiver jogando futebol e eu mandar a bola do adversário pela linha de fundo, exceto pelo gol, como se chama isso?

– Escanteio!

– Boa!

– E se um jogador obstruir o avanço de um adversário?

– Daí pode ser falta.

– E se esse jogador jogar o adversário no chão e pisotear suas partes “moles”? Com uma sandália de salto fino assim como a minha? – e apontei.

– Bem, os jogadores usam chuteiras.

– Mas e se usassem sandálias?

– Daí poderia ser até um pênalti, se o jogador estivesse na cara do gol.

– Você já levou um pisão nas partes moles com salto agulha, Arnaldo?

– Jamais.

– Então eu te dou cartão vermelho.

– Como?

– A partir de agora, seremos apenas nós 3 aqui: João, eu e a viúva Clicquot.

– Mas o agressor é expulso, e não o ofendido.

– Arnaldo… – Apontei para os saltos reluzentes das minhas sandálias.

Arnaldo baixou a cabeça e se despediu.

– E pode isso, Arnaldo? – perguntou João meio incrédulo.

– A regra está clara, não Arnaldo? – confirmei com um leve toque do salto alto no seu calcanhar.

– Claríssima.

(Ivy Cassa)