As manias de Tia Dinorah

Tia Dinorah é daquelas pessoas que têm chiliques quando alguém joga migalhas de pão dentro da pia da sua cozinha, “que não é lixeira nem refeitório pra pombos”. Tem piripaques quando vê grãos de arroz caídos do prato de qualquer visita em cima da toalha de mesa.

Tia Dinorah gosta de comentar eventos aleatórios durante os jogos de futebol. No último jogo do Brasil na Copa, ela competiu de maneira acirrada e desleal com o Galvão Bueno – justo com ele! – sobre quem falava mais durante o jogo. E ela venceu. Passei aqueles 90 minutos sem saber se o Arnaldo César Coelho estava ali ao lado, se tinha mesmo sido pênalti ou como seriam os próximos capítulos da nova novela das 7, porque Tia Dinorah se pôs a contar nos mínimos detalhes como havia sido a quermesse da Igreja do bairro, desde o concurso da Miss caipirinha até as bombas de chocolate com baunilha do Seu Paulo Conchas, que na verdade só se chamava Paulo, mas a Tia Dinorah botava o Conchas ao lado para que eu não esquecesse que ele era o que vendia conchiglione recheado com 4 queijos, que ela só comprava quando vinha visita “mais ou menos” em casa.

Tia Dinorah não gosta de investir na poupança, em fundos de investimento ou na Bolsa. O negócio dela é guardar dinheiro no sutiã.

– Você descostura um sutiã velho e coloca o dinheiro dentro do bojo. Mas, se for viajar, não esquece de colocar os sutiãs no cofre do hotel!

Nem adianta falar com ela sobre desvalorização de moeda e que ninguém mais usa dinheiro em espécie. Tia Dinorah não tem jeito.

Ela conta religiosamente os azulejos da cozinha enquanto almoça sobre o balcão calçando os chinelos só pela metade dos pés, mas sempre se perde na conta das Ave-Marias do terço das dez da noite, porque é a hora em que o casal que mora no apartamento 115 aproveita para mandar ver e o barulho confunde qualquer um.

– Vivi! Parece aqueles filmes que passam de madrugada nos canais que os moços solteiros assistem, sabe? – Tia Dinorah cochichou, colocando a mão na frente da boca, como se os vizinhos pudessem ouvir. Você precisava arranjar alguém assim, como o do 115, completava: bem disposto!

A frustração de Tia Dinorah era eu ter ficado viúva tão cedo.

– De um homem tão distinto! O raio não cai duas vezes no mesmo lugar! – ela alertava.

Para ajudar, Tia Dinorah fazia uma novena diária por mim, que eu nunca soube se não termina porque ela perde as contas dos dias ou se porque o Santo não tem se empenhado mesmo.

– Vem mais cedo semana que vem que tem reunião de condomínio!

– Mas tia, eu não vou nem às do prédio em que eu mesma moro!

– Vou fazer sopa de beteRRaba! – Ela apelou apertando os RR. E o sobrinho do seu RRomeu vai secretariar! Ela, afinal, confidenciou.

O sonho de Tia Dinorah era dar um fim ao meu estado civil de viúva com qualquer parente do Seu RRomeu – “um homem tão bom, foi gerente da Garbo por 30 anos! Não é pra qualquer um. Aquilo era muito estilo, muita RResponsabilidade!” A conversa sempre começava do mesmo jeito:

– Descobri um sobrinho / neto / primo de 5o grau dele que você precisa conhecer. Tão bonito de RRosto!

Era o sinal! Um brucutu de corpo, mas se salvavam um ou dois dentes inteiros.

Dessa vez, o alerta veio em letras garrafais:

– Tão bonito de alma!

Ai, meu Deus! Nem o rosto devia se salvar!

O sobrinho do seu Romeu tinha um nome impronunciável até mesmo para mim, que fui agraciada com uma sopa de letras pela minha mãe.

Tia Dinorah logo convidou o rapaz secretário de reunião de condomínio do capeta para tomar a tal sopa de beteRRaba com a gente.

Ele ria como um castor. Tinha cara de castor. Tinha o corpo de castor. Ele era um castor secretário de reuniões do condomínio.

– Você aceita uma vodka RRussa? Perguntou tia Dinorah.

– Não, tia!!! Dei aquela olhada fatal.

Já era tarde. O castor subiu pra “salgar o galo”, nas palavras dele mesmo.

– Vivi, serve a vodka pra ele enquanto eu esquento a sopa.

Abri o freezer e peguei a cubeta. Quando entortei pra virar no copo, caiu uma pedra de gelo com um mini Santo encapsulado dentro.

– Que é isso, tia? – me assustei!

– Ai, meu Santo Antônio!! Volta ele pra lá que só sai quando as “coisas” se resolverem.

Olhei meio desconsolada o pobre Santo congelado sabe-se desde quando e para o castor chupando a sopa de beteRRaba na mesa por entre os dentes, fazendo barulho.

– Tia. Eu acho que vou embora… sabe… nada pessoal, mas eu não gosto muito de homens que usam camisa cor de vinho… de manga curta… com calça marrom, meia branca e sapato preto. Acho que a gente não combina a respeito de moda.

Tia Dinorah concordou em parte. Ele não devia ter aprendido a se vestir com o tio RRomeu. 30 anos de Garbo! Tanto estilo! Mas não me deixou partir:

– Vou servir umas toRRadinnhas! Fique.

Mas o destino se encarregou de providenciar a gota d’água quando o castor pegou o prato todo migalhento e se pôs a espanar dentro da pia. Ah, não!! Foi só o tempo de esperar o chilique de Tia Dinorah e a visita se tocar de partir. Com um chilique daqueles, quem não iria?

– Tia! Vamos combinar uma coisa? Eu tou bem assim… não precisa me apresentar mais nenhum parente do Seu Romeu. Eu estou inclusive com alguns “projetos entabulados”, percebe?

– Sabe o que é, Vivi?! Ela olhou para um lado e para o outro, e segredou, com as mãos na frente da boca: eu queria um jeitinho de me aproximar do seu RRomeu. Um homem tão distinto! 30 anos de Garbo!

(Ivy Cassa)

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Uma mensagem de amor

Baita sorte você passar por aqui justo hoje, hein?! Acredita que sonhei com você no sábado? Parecia até um anúncio do universo. Aposto que você é capaz de desenvolver uma teoria Junguiana pra justificar a sua visita.

Ah, foi sem motivo… entendi.

Da minha parte? Eu só precisava fazer uma reunião em um cliente que fica aqui no bairro; foi o trabalho de ajustar o horário pra esse encontro dar certo. Lógico que não mudei minha agenda apenas porque você me ligou… Tá se achando o Príncipe Harry agora, né? – mas ele era único e já está casado. Se bem que você também… Deixa pra lá! E pelo que me conhece, você deve imaginar que ele não fazia muito meu tipo… não me parece ser daqueles que declamam poemas no tapete da sala pras suas musas. Não faça esse sorriso malandro de “então eu sou melhor que ele”. Foi só uma comparação besta.

Aceita uma taça de vinho? É aquele que você gosta. Por acaso tinha aqui na geladeira, olha que coincidência! Vou colocar uma musiquinha pra descontrair. Ah! Veja o que é o destino dando uma mãozinha: você lembra dessa do Leo Jaime? “Nada me resta a não ser a vontade de te encontrar, o motivo eu já nem sei”… Você cantou pra mim assim que começamos a nos “enamorar”. Sincronicidade? Ai, você ainda com essas viagens Junguianas! Mais uma! A música tava aí numa playlist qualquer do meu Iphone… só falta dizer que eu ainda tive tempo de ontem pra hoje pra armar a trilha sonora pra essa sua visita de última hora!

Ah, obrigada, você reparou na minha roupa… é um vestidinho bem simples, comprei numa viagem qualquer a Nova York, daquelas que fiz depois de você… Não pra ESQUECER VOCÊ… foi uma viagem corriqueira, só isso. Fiz muitas delas. Não chame de fugas, foram passeios arejadores de mente e coração. Esse vestido, por exemplo, uso em casa, feito pijama, sabe?

Por que meu cabelo tá arrumado? Não tá! Você que tá por fora da moda… Hoje em dia a gente acorda e, enquanto escova os dentes com a mão direita, já faz babyliss com a esquerda. Até pra fazer faxina. Tá, eu sei que não faço muuuita faxina aqui em casa, mas pra botar o lixo pra fora, a roupa na máquina..

Maquiagem profissional?! Hahaha! Cada ideia!! Cê tá reparando MESMO em mim! Óbvio que eu não fiz uma só porque você vinha aqui! Eu… praticamente acordo assim. Esqueceu? Só passei um batonzinho e um rímel incolor. Você gostou? Ah… Não tou vermelha. É o vinho. Duas taças pra gente ficar “imunizado” – lembra como você falava? Mas só vamos tomar uma hoje…

O tempo também fez bem pra você! Tá vendo? Sinal de que não era mesmo pra termos ficado juntos… Não, não tou falando da boca pra fora. Emagreci um pouco, é verdade. Ginástica, zumba, ballet! Você também podia fazer. Eu sei que você corre no parque – que dias da semana mesmo? Não que eu tenha ido alguma vez ao Villa Lobos tentando “stalkear” você ao vivo…! Claro que não! Mas… voltando à corrida… a idade chega pra todo mundo, né? – especialmente pra você que tem mais de década que eu. Hahaha! Desculpa, eu não podia perder a chance de te dar uma alfinetadinha. Já perdi o namorado mesmo. Não tou reclamando do seu corpo… Sempre achei você charmoso e você está tão… tão… ufa! Isso não é uma cantada!

Mentira que minhas pupilas estão dilatadas olhando pra você! Ups! Caiu um pouco de vinho na minha coxa. Deixa eu pegar um pano. Tira a mão! Eu trato disso.

Não, nada a ver eu ter emagrecido porque fiquei deprimida depois que paramos de nos ver… se for assim, você deu uma engordadinha de saudades de mim? Deu? Ah. Bom… sabe que saudades também emagrecem, né? Digo… não que tenha sido meu caso. O importante é que eu me reinventei depois da nossa história e imagino que tenha feito o mesmo. Como? Fiz de tudo… Terapia, igreja, remédio, viagem, vinho, chocolate, personal trainer, yoga… tá, yoga é mentira. Você sabe que sou um pouquinho acelerada pra essa coisa de respirar em 4 etapas… É, continuo! Só não fui pras drogas ilícitas e nem pros rituais xamânicos.

Já se passaram duas primaveras! Duas primaveras sem flores! Achou poético? Não… poeta é você… eu sou só uma apaixonada. Uma pretensa escritora, quero dizer. Enfim! Ah, e teve o meu grande projeto desses últimos tempos: o meu livro… Não! Nada jurídico! É um livro sobre a minha vida. Você lembra? Ok, foi uma pergunta retórica. Eu sei que você lembra de uma porção de coisas, como ia esquecer justo disso, logo você que foi o meu primeiro leitor? Só aposto que não botava fé que eu iria adiante. Ai, como você está cada dia mais metido! Não… não foi um livro SOBRE você. Tá doido? Tou falando de 300 páginas! Quantas dessas sobre você? Ah! Espera publicar e lê, ué!

O coração? Vai muito bem, apesar do nosso último encontro ter sido no hospital por causa dele. Até arranjei um namorado nesse tempo. Um não: uma dúzia! Tá bom. Não quer que eu fale, não falo: eu sei que você me stalkeia. Ah, tá! Vai dizer que aqueles seus colegas de repartição que eu nunca vi na vida ficaram meus amigos nas redes sociais a troco de quê mesmo? Ahã…

Se eu me apaixonei por algum desses namorados que inventei? Digo… que eu tive? Acho que isso não vem ao caso, vem? Quer falar da sua vida amorosa? Eu sei que não. Também não quero saber. Tá, talvez não tenha sido uma dúzia. Importa? Se eram melhores que você? Hahaha! Adoro homem querendo confete!

Foram namorados daquele tipo que a gente precisa colocar no lugar do outro pra não ficar doida. Por quê eu continuo doida? Hahaha!

Eles foram bons o suficiente pra eu NUNCA mais querer receber homem algum aqui em casa, entende? Jamais mudarei radicalmente a agenda por um homem, criarei uma playlist de músicas românticas, escolherei o melhor vestido do armário, chamarei a cabeleireira e o maquiador logo cedo em domicílio e ficarei esperando o amor da vida com a garrafa do seu vinho predileto. Nunca mais!

Ei, você já reparou que parece que essa música do Leo Jaime tá no modo “repetição” do meu Iphone…? “Nada me move nem me faz parar”.

Você não se importa? Quer dançar?

Mais uma taça de vinho? Agora imunizou!

O quê??

Fala no meu ouvido…

Você não precisa ler o manuscrito do meu livro. Tá bem aqui nos meus lábios a mensagem de amor que você veio ler no meu rosto.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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O leitor enamorado

“É só meu o teu livro; guarda-o bem;

Nele floresce o nosso casto amor

Nascido nesse dia em que o destino

Uniu o teu olhar à minha dor”

(Florbela Espanca)

Meu leitor enamorado compreende a necessidade de haver um dia no ano para que se celebre o amor. Ele não repete o clichê de que “dia 12 de junho é mera data comercial”. É capaz de ainda protestar: um único dia é muito pouco para um amor tão grande assim!

Meu leitor enamorado talvez ainda esteja se acostumando com os sentimentos desta autora, o que é até compreensível em se tratando de um leitor que se transforma em personagem ou vice-versa.

Meu querido leitor: hoje – mas tomara que não só – vamos saudar o fervor do amor de Borges em contraste com o friozinho de Buenos Aires, ou até mesmo de Paris naqueles dias de janeiro? Pode ser que pouco importe estarmos à Beira do Rio da Prata ou do Sena. Quando se ama e é correspondido, a vida pode virar baile em qualquer esquina. Venha: em seis tempos, como em um tango, mas se a gente se enganar é só fingir que era cancan e cair na gargalhada. Essa sempre foi a melhor parte, não? Você próprio assumiu que ri fácil do meu riso. Mais alguma coisa em mim lhe faz rir? Hoje quero passar cada minuto sentindo a sua barba mal feita espetada em verdadeiro paradoxo na penugem da minha nuca. E, no fim do dia, lhe batizar com o nome do personagem de um conto que estou escrevendo sobre nós dois. Aqui de dentro das suas mãos, o mundo em que meus dedos deslizam é tão macio que parece o meu cobertorzinho de pelúcia. E já lhe falei que tenho especial predileção pelas zebrinhas que se formam nas paredes do meu quarto quando grudo os olhos nos seus e vejo o mundo através dos seus cílios? E que o tapete peludo da minha sala de TV se amarra na pegada do seu pé, como se um urso tivesse pisoteado a neve a caminho do sofá cinza?

Aí chega o Drummond e fala que o amor bate na porta. Toc toc.

A porta do meu apartamento zomba do meu leitor enamorado um tanto perdido.

– E quando é que ele vai começar a entender? – Ela me pergunta.

– Acho que nunca! – Respondi meio desanimada. Eu falo de amores e de ilusões, mas esse leitor enamorado é um pouco biruta.

E a porta retruca:

– Ivy, biruta é você! Porque até eu que sou a porta de Drummond vejo aqui no abrir e fechar coisas que não ouso compreender.

Meu querido leitor enamorado me desperta uma ansiedade que dilacera o coração. Amor crepuscular não devia ser para calar! Ainda mais uma amante como eu.

– Ai, porta! Acho que você tem razão. Não tenho paciência pra isso não. Metade de mim é amor, outra metade é Rivotril, e as nossas almas manuelinas andam tão incomunicáveis…

– Ei, leitor, venha aqui! Nossos corpos se entendem, deixe a alma hoje pra lá! Venha! É hora da arte de amar. É dia de amar. É dia 12 de junho, mas também poderia ser qualquer outro. Você pode vir quando quiser, claro! Eu te amo.

– Ivy. Você é engraçada. Você parece uma lagarta listada.

– Do ponto de vista dos seus cílios ou dos meus?

– Nem de um nem de outro… Ivy, você parece louca. Mas… você quer ser a minha namorada?

– Ai, Manuel!!!

– Não sou Manuel, sou Borges. Você está me confundindo.

– Leitor… se você for embora de novo, a sua ausência fará ciranda de arame farpado no meu pescoço. Veja: eu já comprei até um vaso de primavera cor de cereja pra ver se trazia alegria pra varanda de casa. Só que o vaso teima em tombar. Me lembra aquele quadro de Magritte, a “Girafa Triste”, que eu vi no museu em Paris. Eu às vezes sou a própria girafa triste. Nem sei se por causa de você ou se por um monte de coisas. Mas aquele pequeno vaso morre todo dia um tantinho ali na varanda feito eu, que nem à varanda mais tenho ido, e sequer uso batons cor de cereja.

– Ivy… você está arrependida?

– De ter amado? Naaaao!! É um amor tão grande que…

– Mas o amor é a véspera do escarro. Ou seria o beijo?

– “Os remos já caíram na água?”

– Ainda não.

– “Eu sou aquela de quem tens saudades.” Sente aqui do meu lado. É só o meu livro. Vamos celebrar.

– É só o dia 12. Uma data comercial.

– Não diz isso! Meus personagens não falam assim!

– Ele fechou a porta porque falou que “o amor batia na aorta.”

– Carlos?

Ele fez sinal de silêncio e andou em minha direção, com os pés afundando sobre o tapete. E nem havia neve no meio da minha sala!

– “Há tanta suavidade em nada se dizer.” Completou. – e mergulhou de volta dentro do livro, sem dizer mais nada.

Drummond depois disse que viu o amor se estrepar, mas eu sei que ele viu foi nossos beijos se beijarem antes de virar a última página do livro.

Ivy Cassa

(Portas Abertas)

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Postal de Paris pra Tia Dinorah

Oi, tia!

Há tanto tempo não mando um postal que já nem sei se começo com bom dia, boa tarde ou boa noite.

Já faz uns tantos dias que iniciei essa fuga para Paris e posso dizer com alguma propriedade: não foi à toa que Neruda, Sartre, Beauvoir, Hemingway e tantas outras personalidades se abrigaram aqui para escrever. Paris é uma festa, ao mesmo tempo em que tem um tanto de lamúria. Tudo depende do que se escoher para beber: champanhe, vinho tinto ou conhaque.

E digo isso porque, nas noites mais frias, não tem jeito, viu, tia: um cálice de qualquer coisa é o melhor (quando não o único) amigo. Nem venha me falar sobre o tal do cobertor de orelha, que isso já não existe mais. Bom, na verdade, eu até vim pra Paris tentando esquecer essas bobagens. Vou te contar como tudo começou:

Eu, que nunca fui de tomar café, (você sabe que sempre sofri com refluxo do esôfago), dei pra tomar uma xicrinha ao amanhecer nos meus útimos meses de Brasil. Nem sei explicar se por causa da cafeína pra dar alguma energia, ou se por culpa da Marisa Monte. O problema todo é aquela música: “Todo dia de manhã enquanto eu tomo o meu café amargo… Ainda boto fé de um dia ter ao meu lado”. Entende, tia?

Precisei vir pra Pa-ris! Tentar parar de tomar café. Digo. Parar de ouvir Marisa. Ou… parar de pensar em Caetano.

Mas, às vezes, a cura vem pelo distanciamento. Ou a estratégia de inventar alguém pra colocar no lugar do outro. Algum dia ainda vai dar certo! Veja só o que me aconteceu.

Conheci um rapaz de Java. Java, tia!! Qual a chance disso acontecer? Tá, eu sei que eles estão estratégica e perigosamente espalhados pela Europa… eu mesma já tinha conhecido alguns em outras partes e até por isso já carregava comigo o sinal de PERIGO!! Aquele mesmo alerta que a mamãe e a senhora ensinaram desde cedo: não entre em carro de estranhos nem aceite balas (a não ser que seja de Uber). E não se meta com caras de Java, porque eles são criaturas mitológicas, lendárias, feito o Boto da Amazônia.

Os homens de Java são os Homo Erectus Erectus, pra começo de conversa. Tia… desculpe a franqueza, mas os homens de hoje nem erectus são!!! Você acredita que Viagra e Cialis passaram a fazer parte daquela minha necessaire dos comprimidinhos básicos? É, Dramin, Aspirina, Dorflex, Gelmax… Viagra e Cialis! Tia, porque ele nem carregam o próprio arsenal! Chegam cheios de banca, como se fossem capaz de povoar o mundo e… “ah, fica pra outra vez. Vamos jogar paciência? Candy Crush?” “Mas com esta camisola da Victoria´s Secret que paguei 200 dólares???”

Só que os homens de Java definitivamente são diferenciados. Tia, a gente se conheceu no café da manhã, enquanto eu pegava um pain au chocolat que eu mal enxergava – não pela falta de óculos, mas pela cortina de sono que semicerrava meus olhos àquela hora da matina. A sala de café estava cheia e ele pediu pra dividir a mesa comigo. Achei engraçado aquele sotaquele de Java e concordei. Quando dei por mim, eu nem tinha pego café! Talvez, fosse o fim da era do café amargo sonhando ter Caetano ao meu lado: tudo sem planejar. Ficamos ali até acabar o horário do petit dejeuner e a sósia da Whoopy Goldberg, que cuidava do esquema da refeição, com aquelas unhas protuberantes, começar a batucar na máquina de café e a dizer que havia outros cafés na praça pra gente conhecer. Uma simpatia de moça!

Sem jeito, levantei logo da mesa e me despedi, mas ele me deixou um cartão e perguntou se eu aceitaria sair para jantar à noite.

Eu disse que a gente podia ir se falando ao longo do dia… um homem de Java!! Um homem de Java!! Eu precisava digerir aquilo. Mas, até a metade da tarde, estava decidida: eu iria!

Ah, tia! Há quantas semanas um homem não me convidava para jantar? Tá, eu sei que o Dênis me levou pra jantar outro dia – mas era no Podrão! E só acabamos indo a um bistrô mais ou menos porque eu inisiti. E ele passou o jantar reclamando dos preços do cardápio. Dizendo que comida boa era a da avó dele. Bebeu água da casa e comeu salada. Bebericou minha taça de vinho com os lábios cheios de azeite. Enfiou o garfo cheio de atum enlatado na minha polenta de funghi. E ainda avançou no meu brigadeiro de colher – brigadeiro de colher não se divide! Eu aposto que ele devia estar saindo de um período de jejum intermitente de 18h, por isso o desespero. E eu fui obrigada a deixá-lo em jejum sexual, porque, depois daquela presepada, não havia clima pra mais nada. Pra que eu o tivesse chutado da mesa, só faltou ele ter pedido um pato, o que realmente me dá aversão.

Mas o Homem de Java não. Perto da hora do jantar, ele me mandou um WhattsApp: “Bella (ai, que lindo!!), escolhi o melhor restaurante da cidade para nós.” Tia, você sabe o que significa isso? Tá, eu sei que você vai dizer que eu não preciso de convite, que volta e meia eu vou a esse tipo de restaurante, blá blá blá. É verdade. Mas eu tou falando de iniciativa. Homens de Java tomam à frente. Não fui eu quem precisou escolher o lugar ou dizer que queria comer bem. Estava implícito. Ele sabia como tratar uma mulher. Eu só precisava brilhar, escolher um casaco rosa, meias pretas, vestido, batom vermelho e o meu melhor sorriso. O resto aconteceria como mágica. Era a minha noite de cinderela.

Quando no encontramos no lobby, caía uma fina chuva, e ele prontamente se ofereceu para ir buscar um guarda-chuva para me levar até a porta do táxi. Bobagem, pensei eu. Mas me senti uma princesa escoltava por aqueles braços firmes cuidando de cada mecha do meu cabelo para que não molhasse com a garoa parisiense.

O restaurante era acolhedor. Tinha uma decoração de casa de avó rica, com lustres de antiquários ostentando lâmpadas coloridas, tapetes persas, bonecas de louça vindas das mais longínquas partes do mundo expostas em cristaleiras. Nossa mesa era discreta, ficava no fundo do salão, de frente para uma janela decorada com abajures e patos, de frente para um quintal que fazia a cidade parecer um pequeno bairro, esquecido no meio daquela imensidão. Patos. Lembrei mais uma vez da minha aversão aos bichinhos. Mortos, digo.

O garçom apareceu com os cardápios e ele prontamente escolheu o vinho. De Java, claro! Era um especialista.

– Pra comer? – perguntou.

– Eu vou querer uns camarões. E você?

– Pato. E fechou o cardápio despachando o garçom.

Não… tudo menos pato! Como é que eu ia dividir a mesa com alguém comendo pato? E se ele resolvesse me beijar depois de tudo aquilo, o que era até capaz de acontecer, e os fiapos de pato dançando na boca dele viessem invadir o meu palato? Aquilo arruinaria a noite!

Fui sutil:

– Detesto pato.

E ele, sem dar muita bola:

– Ainda bem então que você pediu o camarão. E já engatou outro assunto.

Incomodada com a situação, fui elaborando mentalmente planos para quando o prato (e o pato) chegasse. Havia entre nós uma garrafa de vinho, 2 de água, 4 taças, um vaso de flor e uma vela. De pronto, assim que o garçom chegou com os pratos, antes que ele percebesse, fiz um arranjo na mesa, de forma a construir uma muralha entre ele e eu; assim, eu não conseguiria ver o pato. Ele, quando se deu conta daquilo, se pôs a desfazer a construção: “mas o que é isso? Assim nem consigo ver você direito.” “Ah, é que eu gosto de jantar assim, mais escondida.” Inventei. “Não comigo, Ivy! Tá Louca?” Antes que ele pensasse que eu tava mesmo louca, precisei contar… Sabe quando nas empresas existe o “chinese wall”? Este é o meu duck wall…” – falei bem sem jeito.

Naquela altura, tia, quando eu achei que o encontro ia descambar, que nada!! Ele teve um ataque de riso, desculpou-se pelo pato, respeitou o meu “duck wall” e tivemos uma noite de sonho, até incluindo poemas declamados em javanês e dançamos músicas javanesas românticas pelas ruas de Paris.

Quando chegamos ao hotel, fizemos a despedida de praxe e eu, já escolada com os homens de Java, disse que a gente se via um dia, quem sabe em Java, porque… sim, eu conhecia o ritual, homens de Java não passavam a noite juntos, não se apegavam.

Foi quando ele me surpreendeu: “tá louca de novo? Só se EU fosse louco é que ia deixar de passar esta noite com você.”

Ai, tia Dinorah!! Mas pensa que foi só isso? Ele complementou: “Vou até meu quarto buscar minha necessaire e já subo para encontrar você.”

Tia! Que homem hoje em dia tem uma necessaire? Sabe o que tenho visto dos rapazes que aparecem lá em casa quando pergunto se não vão escovar os dentes? (a) não, amanhã eu escovo em casa; (b) me empresta a pasta que eu dou uma bochechadinha; (c) eu já escovei antes de sair de casa; (d) você tem chiclete? Mas nãaao, tia! Homens de Java têm uma necessaire! Eu tirei a sorte grande.

Pena que, no dia seguinte, era hora da despedida. Por coincidência ou sincronicidade, nossos voos saíam quase no mesmo horário, e do mesmo aeroporto. Seguimos juntos. nos despedimos com um abraço grudado no corpo e a promessa de que tornaríamos a nos ver – em Java, em Paris, no Brasil, em quaquer parte desse mundo.

O voo dele saiu um tantinho antes que o meu, e foi quando me dei conta que a necessaire dele tinha ficado na minha bolsa na hora da confusão de fechar as malas. Não resisti à curiosidade de ver quais era as colônias que perfumavam aquela pele, quais os segredos daquele sorriso tão branquinho. Até que encontrei uma pequena caixinha. Curiosidade já estava ali mesmo, segui em frente. Ué… uma caixa tão pequenina. Seriam comprimidos de Viagra ou de Cialis? Mas era algo que brilhava. Enfiei os dedos até o fundo da caixa: Era uma aliança de casamento. “Antonella – 28-05-03”.

Tia Dinorah, como pode perceber, isso não é mais um postal, é uma carta longa Voltairiana, porque não tive tempo de escrever uma carta curta.

Tia, Paris à vezes é uma festa, mas esses dias eu venho tomando conhaque. Com café.

Hoje é 14 de maio de 2018. Aniversário de mamãe. Aniversário de Caetano. Não é fácil. É estranho.

(Ivy Cassa)

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A mãe e a mãe da mãe

A minha mãe virou mãe aos 33 anos de idade.

Por uma dessas coincidências numéricas – não sei se Jung explicaria -, foi 33 anos depois que eu fiquei viúva, que ela ficou viúva, e que, por conta disso tudo, eu virei mãe. Mãe dela.

– Mãe, voce precisa se cuidar! O que fizer por si mesma, estará fazendo por mim. No mínimo 20 minutos de esteira por dia – todo dia, né mãe! 20 minutos em seguida, mãe. Não adianta fazer 5, vai até a cozinha comer bolo, mais 5, bota roupa na máquina… são 20 num tiro só. Passo de quem tá andando na praça da Sé, e não andando na procissão!

– Mãe, olha esse prato! Ou é pão, ou é batata, ou é macarrão… escolhe! Num dá pra fazer orgia dos carboidratos.

– Mãe, PRECISA colocar açúcar no café? E no chá? Não, mãe… eu sei que de amarga já basta a vida, mas deixa as calorias pra outras coisas mais gostosas!

– Mãe! Você já viu QUANTO sal tem no seu prato? Mais um pouco e o garçom vai trazer alho e pimenta, achando que você tá fazendo macumba!

– Mãe, hoje a gente vai tomar espumante no café da manhã. É, vai! Tamos de férias! Tim tim!

– Mãe, bebe mais rápido, né! Já tou quase enxergando uma larva de aedes aegypti nessa taça.

– Mãe, claro que vai comer esse canolli antes do almoço! Sabe quando a gente vai voltar pra Palermo? Sei lá eu!! Dane-se o almoço, bota isso pra dentro!

– Mãe, precisa fazer os exames de rotina, já fez? Mãe, rotina é todo ano, não a cada 15 anos! A Dra. Veneranda? Mãe, eu aposto que ela já abotoou o tubinho de madeira faz tempo! Você não a vê desde que ela fez o MEU parto – e ela já era velha. Vou te passar o contato da minha médica, a Dra. Mônica. Mãe, você foi lá? Só marcar a consulta e andar com os exames na bolsa não adianta. Mãe, a Dra. Mônica fala pra toda paciente que a gente tá linda e saudável! Agora VAI FAZER OS EXAMES!

– Mãe, quem foi que te destratou na clínica? Aquela enfermeira morena? Pois amanhã na hora do almoço eu vou até lá pra gente resolver isso. Quero ver ela repetir o que falou pra você na minha frente.

– Mãe, a dona da clínica mandou avisar que vai te indenizar pelo “incidente”.

– Mãe, passei pela banca de jornal e, adivinha: comprei Luluzinhas pra vc!

– Mãe trouxe presentes de viagem pra você: o pijama do Pato Donald, umas meias do Mickey, chocolates Lindt, umas galochas e um casaco corta vento. Mãe, tooodo mundo precisa de galochas! Claro! Pra saltar nas poças de água! Eu sei que o casaco é meio volumoso, mas é necessário.

– Mãe, já tomou as 20 gotinhas do Previgrip? As da tarde! São 20 por período do dia, vai! E a vitamina C?

– Mãe, fica sentadinha aí nesse café que eu vou demorar na loja. Mas não coloca muito açúcar no café! Não, mãe! Eu não sei quanto tempo vou demorar. A princípio, eu só vou comprar um massageador elétrico, mas pode ser que no caminho eu descubra outras coisas que esteja precisando.

– Mãe, veja que maravilha esses lençóis de 500 fios egípcios! E essas pantufas de unicórnios! Essas taças de cristal. Como eu vou carregar? Na mão, ué! Junto com essas lâmpadas pra varanda. Comprei esse casaco de pele pra você! É sintético, ecológico! Eu sei que você já tem um, mas assim pode sair com outro nas fotos do Instagram! Ah!! E mais esse tênis de macaquinho! Que combina… tcharans!! Com o meu de coelhinho!

– Mãe, esse tipo Clarck Gable aí do seu Facebook tá a fim de você. Claro, mãe!! Já viu o horário que ele te dá as curtidas? Os comentários? Ele tá te stalkeando!

– Mãe, você precisa de fotos novas pro facebook. Assim, vai andando e vira pra mim, tipo sensualizando, sabe? Não, mãe! A cabeça pra cá. Esconde essa mão. “Arreta” a coluna. Barriga pra dentro. Andou! Mãe!! Mãe!! Tropeçou?? Machucou??

– Mãe, hoje eu vou te ensinar a fazer Boomerang com as fotos. É, você pega uma coisa que se mexe, tira, ela vem e vai, como se fosse mesmo um Boomerang. Não, mãe… não adianta fazer Boomerang da lua… 🙄

– Alô. Mãe…? É. Tou meio murchinha hoje… sei lá. Tem dias em que fico mesmo… Acho que tou com cólica, dor na vida… Tá, qualquer coisa eu ligo.

Campainha.

– Oi, mãe!! Que bom que você veio! Sopa de grão de bico! E sem carboidratos!! Tomate em cubos! Água de coco! Pitaya picadinha! O livro novo da Tati Bernardi! Obrigada, mãe!! ❤️

(Por Ivy Cassa)

Sobre amor e ovinhos de Língua de Gato

Era semana santa. Juju estava saindo com Kadu há 2 semanas. Santo milagre! 2 semanas não é só pegação. É quase união estável nos dias de hoje!

Ligou para a melhor amiga:

– Dani, sabe o que ele fez outro dia? Pegou na minha mão depois que a gente acabou de… você sabe… E declamou: “Se você quer ser a minha namorada… Ah que linda namorada Você poderia ser”.

– Juuuuu!! Você ganhou na loteria! Isso nem é pegação!!! É na-mo-ro!! E o que você respondeu?

– Ah, eu sou discreta, né? Fiz aquele ar de que não era comigo, porque a gente não pode entregar o ouro pro bandido! Me fiz de difícil, claro! Daí, no dia seguinte, acordei cedinho antes dele, passei o corretivo nas olheiras, grudei os cílios postiços, passei um lápis cor de boca, dei uma bochechada no Cepacol e corri pra cozinha. Quando ele acordou, adivinha! Eu tinha feito ovo frito pro café da manhã naquela forma que a Mari me deu! A mesa toda decorada. Tudo mensagem subliminar, sabe? Os guardanapos que comprei em Nova York com motivos de São Valentim. E morangos, a fruta do amor!

– Não acreditooo! Armas baixas!! E você usou aquela forma em molde de coração??? Mooooorri!!

– Mensagem oculta, né miga. A gente não pode ser assim tão óbvia.

– E ele???

– Não comentou nada… você sabe como os homens são durões. Comeu o ovo sem dizer uma palavra. Depois, os morangos. Caladinho. Mas aí vem o detalhe!

– Me conta!

– Eu tava indo pro RJ no mesmo dia, dar aquele curso de Direito Regulatório… e ele, ao invés de ir embora, pediu pra ficar! Não… não é que ele pediu pra ficar, do tipo “quero economizar uma diária de hotel”. Ele quis ficar tipo “eu quero ficar aqui pra sempre, sabe??” Era amor, Dani! Eu me arrepio só de falar!

– Sei!! Foi o ovo!! Miga, eu tou sentindo!! Vocês dois… ai!! Eu quero ser madrinha!

– Não só… eu a-pos-to que ele quis ficar sozinho no meu apartamento pra me fazer uma surpresa de Páscoa!

– Ai, migaaaaa!! Vc contou pra ele que adora Lingua de Gato da Kopenhagen?

– Naaaao… nem precisei, né, Dani! Perspicaz como ele é, aposto que abriu minha gaveta de chocolates assim que saí e fez uma pesquisa de campo.

– Juuuu! Você pensa em tudo!

– É! Daí, vou chegar no domingo de Páscoa, e ele vai ter enchido a casa de pétalas de rosa! Vermelhas, porque não é bobo! E vai deixar um caminho de ovinhos de língua de gato desde a porta de entrada até a cama. Com a colcha toda estiradinha, do jeito que eu gosto. E, em cima da cama, uma camisola La Perla. Com um bilhete: você é mais doce (e gostosa) que Língua de Gato. Daí já foi, né amiga?!

– Ju, você é diabólica!

– E sabe coooomo eu vou recompensar?

– Naaaaao!! A-qui-lo?

– Sim!! A fantasia de coelhinha que comprei em Las Vegas!

– Ai, Ju! Então é casamento!!

– Te conto assim que voltar. Torce por mim!

No domingo, Juju voltou de viagem. Entrou pela porta de serviço, porque estava com a mala. Não deu de cara com um rastro de ovinhos pelo chão, mas, sim, com a pia cheia de louças daquele jantar da quinta feira e de mais umas refeições das quais ela nem tinha participado. “Acho que ele nem perdeu tempo com tarefas domésticas por causa da surpresa!” – pensou. Desfilou feito Gisele Bubdchen pela sala de jantar. No caminho, deparou-se com duas xícaras de café sujas sobre a mesa, um punhado de guardanapos amassados e dois pratos cheio de migalhas. Juju tinha migalhofobia, mas era mais forte que aquilo. Seguiu em frente em busca de um objetivo maior. Tá! Ele nem teve tempo! Que homem! Uau!

Juju, apressada e ansiosa, correu até o quarto, aquele ninho de amor do outro dia. A cama estava desarrumada e os lençóis desalinhados exalavam cheiro de suor e havia pêlos – que não eram dela! A colcha de algodão egípcio 500 fios, comprada em Nova York, estava arremessada a noroeste do criado mudo amarelo. Um pacote de camisinhas rasgado jazia ao lado da cama, resgatando a lembrança daquela noite. Não… não era possível’ Onde estavam os ovinhos??

Juju caminhou num passo arrastado até a gaveta de chocolates. Não havia uma única língua de gato, nem as de seu estoque pessoal.

Nisso, tocou o celular. Era mensagem de Kadu. Juju imaginou, com uma quase excitação:

– “Feliz Páscoa?? Obrigado pela hospedagem! Seu ovo de língua de gato está escondido atrás do sofá??”.

Mas não… Kadu apenas dizia:

– Ju, nunca tinha provado café com língua de gato. Tesão!! Precisa abastecer o estoque. Qualquer dia colo de novo por aí. Kadu.

O Natal da Joana Leopoldina Francisca Bragança e o da Kiki

Em sua redação de fim de ano, Kiki escreveu na primeira linha:

“O mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que têm espírito natalino e as que não têm.”

A professora não entendeu de pronto. Talvez, seria um pouco precipitado afirmar que Kiki, pelos seus tenros anos de vida, não tinha espírito natalino, mas quem conhecesse sua história haveria de compreender de certa forma suas razões. Nada grave; nenhum falecimento ou doença. Alguns dissabores foram suficientes para Kiki pegar alguma aversão à data.

Joana Leopoldina e Kiki cresceram na mesma rua e estudaram na mesma escola, mas a primeira se desenvolveu contando histórias fantásticas dos seus natais, que só não eram mais cheios de luz do que os que Kiki via nos anúncios de viagens da CVC para Gramado. A menina se gabava de nunca terem faltado a ela convites para a ceia do dia 24 ou o almoço do dia 25.

Na vida de Kiki, que era filha de uma filha única e, portanto, primos só tinha de um lado, os convites não eram tão fartos. Todo ano passava a véspera na casa de um dos avós e o dia na casa dos outros. E fazia parte da cesta de natal uma desavença entre os pais, porque a avó paterna sempre alertava seu pai sobre a sua idade avançada:

– Se este for meu último natal, você há de se lembrar no meu caixão que estava lá com a sua sogra e não comigo.

Foi assim também que Kiki aprendeu com a mãe que as mulheres precisam tomar decisões na época de natal: engolir sapos ou a cara amarrada do marido na ceia.

Na família de Joana Leopoldina, sobravam tios e primos que, segundo ela, eram os próprios protagonistas dos comerciais daquela antiga margarina. Kiki inclusive desconfiava que a tal margarina havia se inspirado na família de Joana Leopoldina para criar tais comerciais. Nunca houve relato de quiproquó. Joana Leopoldina narrava, com orgulho, em suas redações de “minhas férias”, o momento em que aquelas dezenas de primos e tios reunidos pelo mais puro amor davam as mãos em paz na hora da refeição (em que nao havia uma única uva passa no arroz) para entoar cantigas natalinas e orar.

Já nos natais de Kiki, a hora da comida era o retrato do pandemônio. O avô destampava as panelas e desembrulhava as assadeiras antes dos convidados chegarem – porque cada um vinha numa hora, e comia antes de todo mundo. A avó, quando percebia, distribuía-lhe tabefes nas mãos, sobretudo quando ele arrancava uma das coxas do peru antes de servir à mesa e tirar “A foto”. Mas o avô não ligava – ou porque se fazia de surdo, ou porque já estava surdo mesmo. Deitava no sofá e dormia com a mão dentro da calça do pijama, antes mesmo dos outros convidados chegarem. O pai de Kiki se empolgava com as batidas de coco e maracujá da mesa de aperitivos e a mãe dela ia ficando aflita com tamanha empolgação. Suplicava para a avó servir logo a comida, porque era uma falta de respeito as tias Nazaré e Veruska chegarem tão tarde! A ceia acabava sendo servida pela metade.

Quando tia Nazaré chegava naquele sossego, de ônibus, carregando uma maionese que estava pronta sei lá desde que hora, a mãe de Kiki logo alertava a filha pra ficar longe daquilo, que devia estar cheio de salmonela. Kiki nem ligava. Ela não ia comer de qualquer jeito – onde ja se viu colocar maçã em maionese? Só a tia Nazaré mesmo!

Nisso, chegava tia Veruska, com os gêmeos e o resto da comida. Brava, muito brava! Porque o tio Gênesio nao ajudava a colocar um-sa-pa-to nas crianças! E ela tinha passado a tarde enfiando cravo em tender, pra quê? Pra chegar na ceia e ja estar tudo comido. E o peru só ter uma coxa! Que era feito da outra coxa do peru? Aposto que tinha ficado pro filho preferido, o pai da Kiki, lógico! Os 3 irmãos passavam a meia noite imbuídos do mais genuíno espírito natalino.

Voltemos ao natal da Joana Leopoldina…

A decoração narrada remetia quase a uma réplica da Rua Normandia – naqueles tempos em que tinha até chuva de neve artificial. Os presentes – meros detalhes para seres tão evoluídos espiritualmente – eram sempre um sucesso, pois cada um conhecia exatamente o gosto do outro familiar. O Papai Noel tinha feições tão verídicas que parecia mesmo ter descido delicadamente de um trenó vindo da Lapônia.

Os natais de Kiki eram um pouco diferentes. A começar pela decoração. Os enfeites, assim como seus ancestrais, também eram veteranos sobreviventes que deviam ter passado por algumas gerações da sua família e resistido à primeira guerra mundial e, talvez, também à segunda, no meio do bombardeio. O presépio, na verdade, era um mix de 2 ou 3 presépios que formavam um conjunto pouco harmônico, inclusive quanto à proporção. O sapo era do tamanho de Jesus. Havia não só uma, mas duas Marias, e nem um José. Aquilo devia ser um prenúncio dos tempos modernos. Mas o que mais intrigava Kiki era um carneiro que, indubitavelmente, era um herói de guerra, pois só tinha 3 patas e, mesmo assim, havia sobrevivido e ainda provia calor àquele Jesus que jazia sem manjedoura, porque sabe-se lá em qual batalha ela ficou perdida.

Os presentes na família de Kiki eram lembrancinhas. A tia Veruska sempre improvisava alguma coisa pra um convidado que aparecia de última hora:

– Aninha, peraí que vou até o armário “escarafunchar” alguma coisa pra dar pro namorado novo da Paula.

“Escarafunchar”. Kiki adorava aquela palavra.

Velas, sabonetes e aromatizantes de feiras vagabundas de artesanatos, além de caixas de bombons artesanais, tudo na família de Kiki era reciclado.

– Vai essa caixa de bombons artesanais que a dona Jandira fez pra ele. Escreve aí: Joel. Emenda com Daniel, que é o ex. Essa aí também troca tanto de namorado que a gente nem dá conta. Nem dá pra perceber.

Quando o Papai Noel chegava, com uma máscara que certamente tinha sido comprada em uma loja de Halloween e não de Natal, as crianças se escondiam no quintal.

– Que que a gente fez pro capeta ter vindo ao invés do Papai Noel? – perguntou um dos gêmeos.

– Foi aquela bola que você chutou na janela da dona Odila. Eu avisei. – respondeu o outro.

Mas a máscara era sempre a mesma, porque a tia Veruska. achava o máximo.

Depois, quando todos os avós de Kiki morreram, os convites deixaram de existir. Tia Veruska sumia no começo do mês de dezembro só pra não ter de organizar o natal. Não queria nem se fosse na casa da mãe da Kiki. Tia Nazaré também não dava o ar da graça.

Muito sem jeito, Kiki perguntou para Joana Leopoldina se ela não podia, pelo menos naquele ano, tomar parte daquela tão famosa festa de natal. Pelo menos uma lembrança a menina haveria de ter de um natal dos sonhos.

Chegando lá, Kiki foi recebida por dona Irene, a mãe de Joana Leopoldina, com bobs na cabeça.

– Quem é essa, minha filha?

– A Kiki, mãe! Lembra dela? Minha amiga de infância.

– Claro!

E dona Irene correu lá pra dentro. Ainda deu tempo de ouvi-la dizer pra dona Gertrudes, a governanta:

– Deixa eu ir lá dentro escarafunchar qualquer coisa pra essa gente não sair de mãos abanando. Olha lá na lata de lixo se tem algum papel que dá pra reaproveitar. E se tem durex também, que o da casa acabou. Olha esse pedaço aqui que veio embrulhando a torta. Já separa que serve.

Um pouco antes da ceia, Kiki estava ansiosa pelo momento da oração e da cantoria, de que Joana Leopoldina tanto se orgulhava.

– E então, dona Irene? Quem é o cantor da família?

– É o tio Orestes. Mas hoje acho que ele não está muito inspirado pra puxar a reza…

Kiki olhou de canto de olho para o tio, que fatiava um pedaço de pernil defumado de porco em formato de bola, enquanto cantava, encarnando Elves Presley: “Love me Tender, love me true… Never let me go”

Kiki não conseguia entender… Talvez o coro começasse mais tarde.

Mas não houve nem coro nem reza. Foi um salve-se quem puder quando colocaram o peru sobre a mesa. Salvou-se quem conseguiu arrancar as coxas primeiro. Dois primos saíram no braço e uma das tias passou a noite de cara feia com dona Irene.

Chegou a hora da troca dos presentes. A mãe de Kiki havia caprichado. Tinha comprado uma camisa da Dudalina para Dona Irene. Um pingente da Swarowsky para Joana Leopoldina. Um jogo para Felipe José, o irmão de Joana Leopoldina. E uma garrafa de Blue Label para o pai dela.

Entrou o Papai Noel. Ele não usava máscara, e Kiki achou aquilo fantástico.

Kiki olhou com atenção para tentar reconhecer o bom velhinho. Ele não coincidia com aquele exemplar vindo da Lapônia dos seus sonhos, mas trazia algo familiar.

Papai Noel chamou Felipe.

– Eu!!

Dona Irene conteve o filho.

É Fernando, Papai Noel. Veja a setinha.

Fernando era o irmãozinho de Kiki. Kiki percebeu a rasura no papel de presente, onde se lia, de fato, na versão original do pacote, Felipe.

Fernando abriu o pacote. Era um boneco do Hulk. Fernando, no seu jeito pueril, virou para o Papai Noel e reclamou:

– Eu já tenho esse presente.

Nisso, o irmãozinho de Joana Leopoldina, Felipe, ingressou na conversa:

– Eu também. Por isso minha mãe escarafunchou no armário e botou no saco do Papai Noel pra dar pra você.

– Ah! Mas foi a minha mãe que deu o meu pra você no último aniversário. Esse boneco já era meu e eu não gostava.

Dona Irene e a mãe de Kiki, visivelmente embaraçadas, pediram para o Papai Noel dar seguimento.

Mas Papai Noel estava muito longe da Lapônia. Ele estava era pra lá de Bagdá, segurando um copo de whisky. Ele voltou a cantar Love me Tender, chamou a mãe de Kiki e, ao invés de lhe dar um presente, tascou-lhe “O beijo”.

– Tio Orestes!!

Foi aquele furdunço.

A família de Kiki decidiu ir imediatamente embora de Bagdá, ou de Belém, ou da casa de Joana Leopoldina Francisca Bragança, tanto faz. Não havia mais espírito natalino naquela noite.

A mãe de Kiki ainda entrou no carro meio atordoada, dedilhando no banco da frente “And I love you so”…

Depois daquele dia, Kiki escreveu no seu caderno de redações:

“O mundo se divide em três categorias de pessoas: As que têm natais fantásticos. As que fingem que têm natais fantásticos. E as que ficam caladas.”

Ivy Cassa

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